Um olhar africano

03/10/2011

Estado de Minas e Correio Braziliense – domingo, 2 de outubro de 2011.

Eu só tenho o ‘visitar’!”  Assim entendi o que Mia Couto, o Guimarães Rosa africano, escreveu a respeito das “ocupações invisíveis” do homem rural de Moçambique: “prestar visitas é uma forma de prevenir conflitos e construir laços de harmonia que são vitais numa sociedade dispersa e sem mecanismos estatais que garantam estabilidade”. Certamente esses  diplomatas informais não atravessaram a  extensa fronteira em direção a Malawi, um dos países mais pobres do mundo, onde o presidente Bingo Wa Mutharika  tem dormido fora de casa porque o Palácio de 300 quartos está mal assombrado. Rondam por lá os fantasmas da má consciência da elite africana, um dos piores espíritos malignos do continente. Os contrastes da África são pluridimensionais e lá, como no sertão de Rosa, todos os rios têm três margens.

A imitação improvisada de tudo tomou conta das nações e a erosão das culturas é talvez mais grave do que a degradação do meio ambiente. Mia Couto, que além de escritor é biólogo, diz também, em seu último livro, “E se Obama fosse africano?”, que nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco… São razões comerciais que se fecham a outras culturas, outras línguas, outras lógicas. A palavra de hoje é cada vez mais aquela que se despiu da dimensão poética e que não carrega nenhuma utopia sobre um mundo diferente”. Para muitas das comunidades que o escritor se refere, a verdadeira “pobreza é a solidão (pois) o indivíduo é pobre quando não tem parentes”. Os especialistas internacionais sobre miséria não se dão conta do “impacto dramático (que é) a destruição dos laços familiares e das relações sociais de entreajuda”.

Sem perdoar a incapacidade do continente de gerar um pensamento produtivo inovador, o  escritor quer de seus conterrâneos uma nova atitude diante da vida. Não aceita a imposição de situações folclóricas à sua terra, derivadas de um reducionismo que só a vê como consumidora. “O que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a nossa capacidade de produzir diversidade. Essa diversidade está sendo negada nos dias de hoje por um sistema que escolhe apenas por razões de lucro e facilidade de sucesso. Os africanos voltaram a ser os ‘outros’, os que vendem pouco e os que compram ainda menos.”

A arrogância messiânica dos estrangeiros que vieram “educar” o continente trouxe seu forte preconceito sobre “os sistemas de pensamento e os universos religiosos, que frequentemente nem sequer têm nomes”.  Mia Couto não tem muita paciência com esses  donos do planeta viciados em exercer influência. Ele afirma que chegam à África, distribuem papéis, ditam regras, fixam caminhos, como se  o mundo fosse uma entidade única e homogênea. E com seus pés rotos, por tantos erros na escolha de seus caminhos de colonizadores, querem manter o continente “com os sapatos sujos que nós mesmos calçamos com indulgência”.

O escritor não poupa a elite africana, a corrupção, a indústria internacional da ajuda e a autocomplacência dos próprios africanos diante de sua condição. Acredita até que a vida está melhorando, “mas está a melhorar muito mal”.

Propõe então descalçar os sapatos sujos dos preconceitos e da cultura de “desresponsabilização” que atormentam o futuro da África. E enumera uma série de desventuras vistas como “identidade”. Como, por exemplo,  botar a culpa nos outros, na guerra, colonialismo, apartheid. Isto sempre foi “estimulado pelas elites africanas que querem permanecer na impunidade”. Mas assegura  que são elas próprias que atraem e convidam muitos dos exploradores do continente para a elas se associarem.  É da elite a mania de ajudar a sociedade a fugir da culpa e valorizar quem consegue ter sucesso sem esforço.  Assim, é como se fosse um destino da região o povo achar que é natural depender dos poderosos e considerar o êxito não um resultado do trabalho e planejamento, mas, sim, do acaso e da sorte.

É, também, forte marca do comportamento africano a noção cega de lealdade e a passividade diante da injustiça. Comunidades inteiras vivem na violência “como quem não sai do seu idioma”, define o escritor moçambicano.

Num continente onde a regra é a existência de governos corruptos e de dirigentes sem preocupação com o bem comum, o caminho da autodeterminação  proposto por Mia Couto é surpreendente. “Somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela História. Mas nós fizemos parte dessa História, fomos também empobrecidos por nós próprios. A razão dos nossos atuais e futuros fracassos mora também dentro de nós.”

Com 1.500 línguas, a segunda população da Terra e intensa vida cultural, a África não é um acaso nem uma abstração. É um sonho vê-la sincronizada, com autonomia e identidade, ao tempo mundial.

Paulo Delgado, sociólogo, foi deputado federal.

Autor:

Deixe uma resposta

 
WP-Highlight