Um Mundo Desconforme

03/07/2011

Estado de Minas e Correio Braziliense, 3 de julho de 2011.

A insatisfação criadora e o antiautoritarismo perderam muito com a morte do político e escritor Jorge Semprún. Combatente da liberdade de pensamento, perseguido na Espanha franquista, preso pelos nazistas, desprezado pelos stalinistas, ministro social-democrata, nascido em Madri, morreu meio exilado em Paris nesse mês de junho.

Do outro lado do Canal da Mancha, Howard Davies, diretor da London School of Economics, Universidade das mais bem avaliadas do mundo, já havia confirmado que a instituição trocara sua reputação por 1,5 milhão de libras. Recebidas de Saif Al-Islam, o mais célebre filho do ditador Kadafi e que por coincidência, na mesma época, defendia sua tese plagiada de doutorado . A doação serviria também para treinar líderes da Líbia no Reino Unido.

Essa semana, na cidade de Haia, o Tribunal Penal Internacional (TPI), corte multilateral de direitos humanos destinada a julgar, por genocídios e crimes contra a humanidade, pessoas e líderes que não foram alcançados pela justiça dos seus países, condenou e mandou prender Muamar Kadafi e seu filho, benfeitores da distinta escola inglesa.

Quarta-feira passada, por estar condenado pelo TPI por continuado genocídio e agressão contra seu povo, o também foragido ditador do Sudão, Omar Al Bashgir, foi calorosamente recebido pelo Presidente da China que lhe prometeu milhões de dólares como prova de estima e cooperação.

Quarta-feira que vem, sem conseguir punir os responsáveis pela crise financeira atual, o FMI dá posse a Christine Lagarde e muda de sexo sem mudar de gênero. As vítimas, como sempre, é que vão pagar o custo da maior combinação de omissão estatal com trapaça e cobiça privada já vista na história da economia mundial. O Fundo aproveitou o envolvimento de seu ex-Diretor Gerente DSK – com a polícia de Nova York e a camareira que limpava seu quarto – para entregar à mulher francesa o papel de fazer os pobres limparem a bilionária sujeira dos bancos.

É impossível não perceber que uma certa forma e estatura da Justiça e de juízes despede-se de nossa geração. Mas quis o destino que este desmoronamento encontrasse de uma só vez na cidade de Nova York novos sinais de vida útil do Judiciário. Destacam-se no fulminante processo em curso a camareira da suíte master do hotel francês Sofitel; o Promotor de Manhattan Cyrus Vance Jr., filho do Secretário de Estado do Presidente Carter – um ex-presidente americano conhecido ativista dos direitos humanos-; o saliente e rico chefe do FMI Dominique Strauss-Kahn (DSK); o chefe da polícia local, Ray Kelly, que recebeu de Nícolas Sarkozy a Légion D’honner, maior condecoração da França.

O colapso como escândalo sexual criminoso – em vez de estupro, permissividade mútua – por mentira da acusação, depois da prisão humilhante, na primeira classe do avião da Air France, do potencial Presidente da França, à primeira vista revela a ação de um judiciário gangster, cruel mas justo. O que não seria pouca coisa diante da falência de autoridade que anda por aí! Mas Sarkozy, que corre nos fins de semana em Paris com a camisa NYPD, logotipo da Polícia de Nova York, dirigida por seu amigo condecorado e é correligionário do dono do Hotel, tem tudo para parecer suspeito da armação para cima de seu principal adversário socialista. No entanto pode ficar tranquilo quanto a sua co-autoria: a lição de sexta feira em NY é que a Justiça verdadeira não tem medo de acreditar e duvidar da credibilidade de qualquer pessoa: seja a modesta camareira enrolada, seja seu oferecido hóspede poderoso. E de mudar de opinião depois de investigar.

Diante do poder das finanças globais, da crispação da vida francesa com o conceito de justiça americano, da diplomacia muda e assustada, da pressão da imprensa mundial sobre o episódio, é possível festejar um exemplo: não é caricatura ou falha o que se vê em NY, mas justiça em movimento e assim sendo feita.

Paulo Delgado, sociólogo, foi Deputado Federal por seis mandatos.


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