Sofrimento Urbano

02/05/2011

A vida urbana é para a maioria dos seus membros uma liberdade. Costuma ser a única salvação para os desprotegidos e um prazer para  quem aceita com naturalidade a sí mesmo e aos outros.  Eles querem a cidade, a cidade é que não os quer. É nas suas ruas o único lugar do pertencimento para todas as pessoas que por alí circulam, com ou sem destino. É alí que nos fazemos universais.  Quem alí chega, mora, pede, precisa, se diverte  e trabalha define seus contornos. E percebe, cada vez mais, que se chegou ao limite da solução isolada de seus problemas, seja pela lógica privada, seja pela lógica pública.  A cidade vive de exemplos, da difusão e declínio de suas vantagens e desvantagens, das designações e olhares de uns sobre os outros, das biografias sem registro que permitem identificar e respeitar  sem atribuir hierarquias. Melhora pelo hábito de aceitar às pessoas, sem estereótipos ou preconceitos. Piora quando características e costumes individuais ou de grupo se impõem pela força.

A cidade é o melhor dos mundos para a ajuda mútua de carater coletivo, mas anda cada vez mais invadida por tipos que têm dificuldade de reconhecer seus defeitos.

O consumo ostensivo de bens está movendo a todos. Produz gradações e estilos de vida  de uma sociedade múltipla. Não há adorno que não tenha se transformado num costume, nem tabu que condene o vestuário, hábitos alimentares, musicais, transportes, enfermidades, preferências, delicadezas, grosserias. O bem e o mal se universalizaram. Todas as classes estão ultrapassando os níveis razoáveis  de consumo de bens materiais. Mas sem a elevação da espiritualidade o próximo passo pode ser o consumo destrutivo e a perda total da cordialidade para o bem viver. Cai cada vez mais em desuso a discrição, educação, relevância  e respeito no exercício de desejos e papéis, dos cidadãos às autoridades, capturados pelo propósito de aparecerem, nome dessa obstinada aceitação social em voga.

Foi de um jornal de Recife a melhor manchete sobre a tragédia de Realengo: Doze mortos, 180 milhões de feridos! Quem vai deter o genocídio dos motoqueiros; a chacina das mulheres; a gravidez das meninas; o desamparo dos adolescentes empurrados para a rua antes da hora; a tragédia dos jovens amestrados por concursos  que deles só querem o que não sabem? A  miséria extrema? A estupidez do trânsito? O desinteresse da medicina  pela pediatria, homeopatia e a escuta do sofrimento?

Quantos hoje  pensam  que tudo que acontece  diz respeito a todos?

Pequenos fascismos tomam conta do  dia-a-dia. Não há bom senso no uso abusivo do celular, falado aos berros em qualquer lugar e nos fazendo testemunhas de barbaridades de todo tipo.  A imposição da vaidade inculta pelos twitters; o som alto e horrível que dispara alarmes na madrugada em carros e lojas. As máximas imorais de parlamentares provincianos e racistas repercutidas com cumplicidade. Os policiais e suas viaturas intimidadoras estacionadas nas calçadas e na contramão, estão certos que os riscos da violência diminuirão pela  desconfiança imposta a todos sobre a forma legal de combatê-los.

O funeral da beleza natural pela uniformização da face e dos dentes por atarefados cirurgiões da estética sem ética.  A estranha idolatria dos que não cumprem horário desrespeitando as horas de quem dependem. O fim das vocações diante da pressão pela profissão e a sindicalização de tudo. Os negócios comerciais das Igrejas de eventos, e a morte espiritual dos fiéis para o livre arbítrio. A vida tornada fútil das pessoas interessantes e a imposição cotidiana da vida vazia das pessoas fúteis.

Que fazer para construir de fato uma civilização urbana?

Certamente educação para um ser humano melhor e não violento. Fundamentos humanistas para o desenvolvimento amparados por leis razoáveis que  ajudem a moldar a compreensão e atitudes das pessoas. Assim preservar a taxa de civilidade nesse tempo de desperdício de personalidade e adaptação extrema ao consumismo individualista.

Paulo Delgado, sociólogo, foi deputado federal.

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