Paulo Delgado se despede de 20 anos de Congresso

05/02/2007

O professor Paulo Delgado, do PT de Minas Gerais, foi deputado por 20 anos, com muito zelo, assiduidade e jamais se meteu em encrencas. É um daquele nomes sempre citados quando alguém quer mostrar que tem gente honesta no Congresso. Paulo Delgado foi abatido pela crise do PT mineiro, e não foi reeleito. Na semana passada, quando esvaziava as gavetas no seu gabinete, pedi que escrevesse uma despedida da Câmara e da vida de deputado. Transcrevo abaixo o artigo do deputado especialmente escrito para este blog.

31 de Janeiro

Quarta-feira passada, dia 31 de Janeiro, devolvi ao parlamento minhas prerrogativas de deputado por Minas Gerais renovadas por cinco mandatos consecutivos desde a Constituinte. Busquei exercê-los, sem pensar em preservá-los. Não me alimentei do fanatismo da política, permanecendo livre e independente dentro do meu partido e do Congresso Nacional. Fui um político de opinião, formulador, debatedor, dissonante. Cumpri meu dever de fiscalizador e legislador com autonomia diante dos seis governos e presidentes com os quais convivi. Vinculei-me as correntes de opinião que na constituinte e nos anos noventa contribuíram para a estabilidade econômica, fim da inflação, multilateralismo nas relações internacionais, democracia plena, responsabilidade social e fiscal, elevação do conteúdo social das leis, moderação do discurso político. Nunca fui delas um desfrutador ou beneficiário, salvo pela satisfação derivada do senso do dever cumprido e das incompreensões que acompanham a premonição em política.

Fugi dessa galeria de espelhos que multiplica personagens e produz as panelinhas. Fui um extra-clero, um deputado solitário que não fez vida social no parlamento. Sobrevivi ao drama que se tornou ser um deputado em seu ambiente – essa nova classe social dos políticos que atuam numa casa e não mais num poder. Desde que a ortodoxia financeira criou a reeleição o poder dos congressistas passou a ser visto como uma doença com a qual o executivo é obrigado a conviver contrariado. Daí de elevado poder e atributos a melancólica casa de atributos para políticos sem poder. Não posso, todavia, dizer que fui indiferente e inacessível à humanidade e sentido público que existe em muitos dos meus colegas políticos aos quais passei a admirar. Relevado isso mantenho, vinte anos depois, minha observação feita quando cheguei como um professor sem papas na língua: não vim a Brasília fazer amigos, mas leis. Creio ter cumprido minha palavra. Tornei-me autor de inúmeros projetos e pareceres que se tornaram leis, artigos de leis e textos de convenções internacionais.

Nunca fiz mandatos neutros, comodistas. Escapei da obscuridade sem a necessidade de desenvolver instintos próprios dos que cultivam as fontes do poder. Fui um político nos termos que compreendo tal função, essa espécie de pessoa elevada acima de si próprio, cuidando dos outros e seus problemas. Num ambiente onde é mais honroso ser esperto, saio tranqüilo mantendo a tonalidade do sentimento de não tê-lo sido. Como se viu. . .

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