Os Frutos da Paixão

26/12/2011

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 25 de dezembro de 2011.

O mundo tem poucos dias assim, da mais plena liberdade, para resolver seus desentendimentos com Deus. Mesmo para quem não for capaz de dispensar as funções e as preocupações do dia a dia, o Natal é um exemplo como nenhum outro na bela história da religiosidade do mundo. Dedicado inteiramente à paixão pelo outro, a origem do cristianismo é a mesma da esperança. Pois, qualquer que seja a compreensão que temos da vida humana, é na relação com o sentimento dos outros que vão se conformando e definindo nossos valores. E todos aqueles que fundamentam suas vidas em deveres de convivência, atenção e solidariedade, movidos pela fé ou sendo laicos, reconhecem a força da história desse jovem capricorniano de 2011 anos.

As provações e a busca da igualdade forjaram a história do povo cristão. E a grande novidade é ter despontado entre os romanos, na família de um modesto carpinteiro, a figura de um reformador indignado. Disposto a libertar seu povo da opressão e ir além para salvar toda a humanidade, o profeta escolheu o caminho de falar ao coração. O combate que o Filho do Homem anunciou — misturando instituições romanas, filosofia grega e tradição judaica — buscou sua força na poesia das palavras, transmitida em inigualáveis parábolas, onde afirmou que era pelo perdão de todas as ofensas, em fraternidades e banquetes, que se constrói o caminho da procurada salvação.

A história tem um destino que as religiões e seus mistérios ajudam a traçar. E o senso de dever e sentido que motiva o ser humano é tão universal como a busca da felicidade; o temor diante do sofrimento; os diferentes sistemas de crença e compreensão da vida; a virtude do exemplo como freio ao avanço da ambição.

É certo que os comportamentos morais e os mistérios que impulsionam as pessoas para a fé podem ser encontrados mesmo entre aqueles cujo humanismo não nasceu de fundamentos sagrados. E é nesse momento que é possível pensar num valor universal, que possa unir comportamentos religiosos e laicos, em torno de um diálogo que assegure o progresso da vida e a paz de nosso espírito. Esse ponto comum pode ser a ciência e suas certezas; as coisas práticas que não deixam dúvidas; ou o senso de dever e de justiça que nos leva ao cumprimento das mesmas leis. Pode ser também o sentido do sagrado que é a necessidade de preservar a inocência de uma criança; a certeza de que a proteção da família e da maternidade é um fator decisivo na sobrevivência dos bebês; a sensibilidade para partilhar idéias sobre o senso de vergonha; a naturalidade para respeitar a propriedade dos outros; a oposição irrestrita ao preconceito e ao fanatismo.

Princípios naturais e os fenômenos extremos que atingem a terra, mesmo explicados pela física e pela química, contêm também sua transcendência. E a compreensão e aceitação de suas leis ajudam a dar mais modéstia ao ser humano. Não é porque não sabemos que devemos estudar sempre mais um pouco, é justamente porque sabemos que precisamos da sabedoria dos outros.

Querer bem aos semelhantes pode também ser uma boa regra da política, quando esta reconhece, pela criação da justiça tributária, que não devemos dar a César mais do que é de César, e assim realiza a necessidade de aumentar a vantagem dos que estão em desvantagem. São princípios supraindividuais, baseados em boas idéias de distribuição de oportunidades, que criam sociedades estáveis e mais democráticas. A boa fé dos governantes e seu compromisso com justiça para todos, vendo a dor dos outros como se fosse a própria dor, ajudam a diminuir o espaço do instinto natural e da violência. A tolerância é um desígnio e uma necessidade humana cada vez maior, seja aceita por razões religiosas, seja formulada por princípios jurídicos.

O mundo tem boas razões para querer a paz entre as diversas religiões e aceitar a liberdade de crença como um valor universal. Um terço da humanidade professa a fé cristã e deve contribuir para que ninguém possa ser obrigado a negar sua religião. As diferentes convicções não podem gerar perseguição e martírio, como ainda ocorre no Oriente Médio, região que é o berço do monoteísmo. É a caridade, nomeada “amor” nas cartas de Paulo, que produziu a doutrina social da Igreja, e que tanto influenciou as bases do estado de bem estar social, tão positivo para os países que o praticam. Sem caridade (amor), misericórdia e senso de justiça, podemos dizer que a fé a esperança não se sustentam.

Não é a razão, não é a riqueza, não é a saúde, não é a beleza. O que de fato nos distingue é a bondade. E os frutos da paixão pelo bem comum que fazem da história do Natal um belo motivo para que nosso mundo seja orientado para a paz.

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Paulo Delgado.


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