O Martírio do Dever

26/09/2011

Estado de Minas e Correio Braziliense – Domingo, 25 de setembro de 2011.

Um dos mais preciosos versos produzidos pela inesgotável guerra entre palestinos e judeus é do poeta israelense Yehuda Amichai: “do lugar de onde temos razão não nascem flores na primavera”. Ali do lado, o vigoroso poeta palestino Mahmoud Darwish compreendia que a natureza daquele conflito era a luta entre duas memórias que deviam se fazer conhecer e respeitar. E confirmava, através da altiva identidade dos seus versos, que a paz é melhor compreendida por poetas do que escrita por políticos.

São dois povos irmãos, um mais rico, um bem pobre, e seus sonhos bíblicos. Ao longo da história convivem com experiências semelhantes e paralelas de perseguições e preconceitos. Israelenses e palestinos passaram a vida em diáspora e esperança, e nos últimos tempos a maioria vive silenciosa, aguardando a paz, muito à frente de seus fanáticos líderes. Vários destes obcecados com profecias de reestruturação nacional e péssimas interpretações das revelações dos livros sagrados. Ostentando uma doente certeza da superioridade do conflito sobre a moderação.

É a opressão do passado e o envelhecimento da governança mundial do presente que empurram estes dois vizinhos para o fanatismo. São fatores que impedem o surgimento da fórmula demográfica e territorial do compromisso, que trace suas fronteiras e preserve os lugares sagrados para ambos.

O notável escritor pacifista, Amoz Óz, diz que o “conflito árabe-israelense é essencialmente um conflito entre duas vítimas do mesmo opressor. A Europa, que colonizou o mundo árabe, o explorou, o humilhou, esmagou sua cultura, o controlou e o usou como um quintal imperialista, é a mesma Europa que discriminou os judeus, os perseguiu, os enxotou e, finalmente, os assassinou em massa num crime de genocídio sem precedentes”. E completa que é muito difícil que duas vítimas possam desenvolver um sentimento de solidariedade. Humilhados por padrastos cruéis, filhos necessariamente não se amam e certamente tornam-se obsessivos na sua busca por respeito. Desenvolvem, como infelizes, um roteiro de coações e imposição de sofrimento contra a simples presença do outro.

Como ninguém quer dali se mudar, por todos terem direitos históricos legítimos sobre a terra, é a profunda ignorância dos dois irmãos – o árabe Ismael e o judeu Isaque – sobre sua condição de vítimas, que alimenta o martírio do dever que os faz fanáticos. Fanatismo que inunda tudo e se revela especialmente na tese insistente de tomada da terra pela guerra. Do contrário, dispensados os aliados de ocasião, regionais e internacionais, sempre interessados na importância estratégica da região e na venda de máquinas de guerra, a questão central é a aceitação do mapa largamente conhecido e o respeito às fronteiras para a convivência dos dois Estados independentes. Que deverão contar com recursos, democracia, repatriação, soberania e autodeterminação.

Quem imagina ser livre tendo ao lado um vizinho acuado ou subjugado? Se o objetivo é a paz, nunca será alcançado enquanto o uso do fanatismo e sua insanidade for o instrumento para expressar o desejo de definição da soberania territorial. Uma questão que desde a Resolução de Partilha de novembro de 1947 não é mais novidade para os dois lados. Questão indolentemente encaminhada pelas Nações Unidas na ocasião. Foi da recém-nascida ONU, e sua indiferença pela execução e implementação dos termos da Resolução 181, a responsabilidade pela eclosão da primeira guerra entre os dois nascentes países.

Daí em diante o extremismo passou a ser usado – de um lado por árabes e seus aliados soviéticos e, de outro, por israelenses e seus parceiros europeus e norte-americanos – para continuar manipulando a região e os conceitos de liberdade, equidade, democracia, segurança e paz. Os dois lados capricharam nos meios seletivos de destruição e inauguraram a “terra de ninguém”, onde nem a guerra é mais declarada. Surgiram os “réus de crimes legais”, apoiados por fanáticos de todos os lados, até hoje.

A crise permanente na região é mais velha do que o Islã, o Cristianismo ou o Judaísmo. Ultrapassa política, Estado ou ideologia. Seu motor é alimentado pela lógica dos que acham que suas convicções e atitudes são mais importantes que tudo, inclusive a vida. Lógica que está presente em vários governos do mundo, com seus imperialismos, oligarquias e ambições teológicas. Só o rompimento com os fanáticos, com sua simplória visão de reformadores do mundo e com seu doentio altruísmo pode livrar a humanidade dos autoritarismos e totalitarismos nas relações humanas. Pois quando a intolerância torna-se política, deságua sobre a vida da nação.

Não há superioridade moral de um povo sobre outro. Há leis e fronteiras. E entre palestinos e judeus há necessidade de paz.

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Paulo Delgado, sociólogo, foi deputado federal.


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