O guardião da virtude

15/06/2003

ESTADO DE MINAS, 15 DE JUNHO DE 2003. Opinião.

PAULO DELGADO

Deputado federal (PT-MG)

Observando a vida cotidiana e política brasileira, sem ter a superioridade existencial de um Samuel Beckett da magistral descrição do escritor E. M. Cioran, nos Exercícios de Admiração, fico entre espantado e otimista. Diz o romeno a respeito do amigo irlandês: “O tempo que temos para passar na terra não é tão longo para que o utilizemos em outra coisa além de nós mesmos. Esta frase de um poeta se aplica a todo aquele que recusa o extrínseco, o acidente, o outro. A arte inigualável de ser ele mesmo. Coisa difícil de acreditar, e até monstruosa: não fala mal de ninguém, ignora a função higiênica da malevolência. Nunca o ouvi difamar amigos nem inimigos. Poucos conseguem viver esforço semelhante próprio do escritor verdadeiro de manter-se à parte, divisa tácita de cada um dos seus momentos, no que ela pressupõe de solidão e de obstinação subterrânea, na essência de um ser apartado que prossegue um trabalho implacável e sem fim”.

Ao contrário, como se fosse por profissão e delírio, políticos e jornalistas vivem da indiscrição, desconfiança e reiterada mania de buscar defeitos, imperfeições e culpas sempre no outro, de preferência. Noticia é o que não presta, o resto é publicidade. Digo isto ao refletir sobre o agravamento das críticas sobre o trabalho parlamentar e seu papel que todo início de legislatura se renova divulgado pela imprensa e alimentado pela nova safra eleitoral. A rotina da irrazão produzida pelos especialistas em ter razão.

Duas questões centrais se interligam. De um lado, o regime de opinião imposto pela imprensa, que vai construindo e desconstruindo a verdade ao longo do dia no sistema on line da internet, rádio, TV. Ou a versão publicada na imprensa escrita, desculpada nas sessões de erramos ou no confessionário do fim de semana dos que usam o racionalizador sistema de ombudsman, a última chance da mentira ou erro. De outro, o regime de imposição construído com a vulgarização e a transparência da fonte que transforma querela pessoal em fato. Confiança e credibilidade vão sendo substituídos por arrogância e invulnerabilidade de políticos e jornalistas. Nos dois casos interdependentes e, felizmente cada vez mais públicos, o pouco rigor na análise do fato e sua rede de complexidade. Platitude e desconexão coma vida real de 175 milhões de brasileiros.

NÃO PODE HAVER NENHUM TIPO DE COMPLACÊNCIA OU TRANSIGÊNCIA COM A FISCALIZAÇÃO E O ERRO NA VIDA PÚBICA

O escândalo pode estar em outro plano. A poucos dias o advogado carioca, especializado em direito de quadrilha, reuniu seus cúmplices em defesa coletiva, ensinou a milhares de estudantes de direito, pela televisão, como se viola o Código Penal e se mantém impune. Sua corporação sindical, corajosa diante do presidente contido pelo protocolo, mantém-se regimentalmente silenciada diante de seu notório e desaforado membro. No meio jornalístico a tragédia é a manipulação, mentira e o plágio que derrubou repórteres e editores do The New York Times – o festejado jornal norte-americano que coleciona prêmios Pulitzer de honradez, competência e ética jornalística. Sem falar que, com Bush e Blair, a América militar e seu Reino Unido manipulam a cobertura jornalística com a mentira política para colocar a máquina de guerra em movimento contra o Iraque de papel. Desastre para a credibilidade democrática esta apuração da verdade de forma oligopolizada pelas mega agências de notícias aqui e no mundo.

Do lado do Congresso a maratona ético – publicitária própria da corrida de obstáculos que querem preservar mandatos a qualquer custo. Lembro-me do libelo, derivado de decisões práticas e pessoais de Henry D. Thoreau, publicado em 1849, a desobediência civil. Diz o rebelde de Concord: “Há 999 patronos da virtude para cada homem virtuoso. Porém, é mais fácil lidar com o verdadeiro possuidor de uma coisa do que com seu guardião temporário”. Não pode haver nenhum tipo de complacência ou transigência com a fiscalização e o erro na vida pública. Tanto quanto não pode haver dúvida de que o guardião da virtude tem de ser virtuoso. Diz Confúcio – citado pôr Thoreau – que, “se um estado é governado pelos princípios da razão, a pobreza e a miséria são motivos de vergonha; se não, a riqueza e as honras é que são motivos de vergonha”.

Não deveria poder o parlamento como instituição de representação, fiscalização e modernização do sistema legal e político brasileiro, viver de publicidade e notícia de autopromoção. De que adianta ser o guardião da virtude dos outros? A visibilidade de quem tem poder e influência se dá pela confiabilidade derivada de reputação, competência e integridade diante dos desafios. Mas nada substitui exemplos e ações práticas exigidas no dia-a-dia com ampla noção de justiça e o mais elevado destemor. Fora disto é polemismo publicitário, sempre muito vantajoso para quem o provoca, longe do horizonte real do leitor ou eleitor. Discrição e modéstia, a agenda perdida da política atual.

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