O dilema do prisioneiro

16/03/2003

ESTADO DE MINAS, 16 de março de 2003.

A moralidade política não é apenas uma questão de possuir um conjunto de objetivos e não outros, mas também da relação entre estes objetivos e suas conseqüências para os outros. Não se interessar pelos efeitos dos seus atos é deixar pela metade o ato moral. Toda nação tem sua própria usina de falsidades, mas comparadas entre si nos períodos de crise, produzem o ranking moral que as engrandece ou degrada.

A iminência do ataque norte-americano é mais do que a afirmação do poderio militar imperial sobre a desabrida e vil ditadura iraquiana. É a reafirmação do tormentoso sonho humano de encontrar situações em que uma única causa ou pessoa se torna a síntese e a encarnação de todo o mal. Quantas pessoas e nações instruídas e civilizadas embarcam com entusiasmo nesta prisão cada vez mais estreita que é o ódio ao outro, a revanche, sem se dar conta de que não há nada mais difícil de parar do que o ódio. É a ética do prisioneiro, onde cada um tem uma estratégia individual estritamente dominante para se safar, impor sua vontade, independente do que os outros vierem a fazer depois.

Como explicar que depois da mais vigorosa e ampla solidariedade internacional que os EUA já receberam – depois do 11 de Setembro – o governo do país possa ter sucumbido à sensação esmagadora de abandono, colocando preventivamente sua máquina militar em movimento? Como aceitar que as estratégias cooperativas, diplomáticas, multilaterais de resolução de conflitos sejam desmoralizadas pelo principio primitivo do uso da vingança em nome da justiça? Secular ilusão com a eficácia da atrocidade…

Ninguém que se iguala ao seu algoz consegue mais do que um isolamento autodestrutivo, além da perigosa incapacidade de entender o que está acontecendo no mundo atual. Há cada vez mais coisas fora do controle dos governos, superpotências ou não. Do sistema financeiro a lavagem de dinheiro; da criminalidade cibernética ao tráfico de órgãos, crianças e drogas; das doenças infecciosas ao terrorismo.

Esta incapacidade não é mais privilégio de ninguém, todos estamos entre a rocha e o lugar duro, independente do nível da capacidade de combate ou do grau de humanidade de nossas nações. O poder cru não é mais poder.

Mas a circulação do antiamericanismo retórico e ideológico que grassa no mundo, impulsionado pelo contra senso do seu governo atual, começa a ter eco dentro do próprio EUA como se vê pelas manifestações pacifistas do seu povo ou, por exemplo, o discurso do senador Robert Byrd, feito há duas semanas, em Washington, onde diz, dentre outras coisas:

“Esta nação está prestes a embarcar no primeiro teste de uma doutrina revolucionaria, aplicada de forma extraordinária em um momento inoportuno: a doutrina do ataque preventivo.

A idéia de que os Estados Unidos, ou qualquer outra nação, possa atacar legitimamente uma outra que não é eminentemente ameaçadora agora, mas que pode sê-lo no futuro, por qualquer razão definida pelo governo da nação que se sente ameaçada, é uma distorção radical da idéia tradicional de autodefesa. Esta doutrina está em desacordo com o direito internacional e as diretrizes das Nações Unidas. Esta administração tornou a paciente arte diplomática em ameaça, rotulando e chamando pelo nome nossos aliados reflete uma certa pobreza de inteligência que imaginávamos abolida das administrações norte-americanas. Chamando chefes de Estado de pigmeus, continentes de culturalmente pobres, denegrindo poderosos aliados, onde quer chegar nosso Governo?”

Assim tem sido: na dúvida o povo dos Estados Unidos segue a grande tradição da fronteira a ser conquistada. Desvencilha-se da carga pesada, bifurca a nação e se aproxima do mundo transformando em literatura, música, teatro ou cinema sua agonia.

Já é hora desta grande arte não ter origem na culpa.

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