Marcas para o futuro

04/11/2007

(O futuro ao que é bem feito)

Quando a UNESCO percebeu que as águas represadas da grande barragem de Assuã submergiriam os templos de Fila e Abu Simbel no Egito, deu-se o impulso para a conservação do Patrimônio Cultural e Arquitetônico em todo mundo. O que era próprio da preocupação, ou não, de alguns países entrou na agenda internacional.

No Brasil, por exemplo, para proteger Ouro Preto e concedê-la o título de Patrimônio da Humanidade bastava observá-la, descrevê-la e compartilhá-la com o mundo, ajustando-a aos critérios estabelecidos. Nosso museu colonial urbano mais completo pulsa vivo; e ainda que vulnerável, sobrevive ao tempo pela ação dos que o compreendem, respeitam e partilham.

Já para tombar nossa Capital, era preciso vencer os contrários à consagração precoce da arquitetura moderna, defensores da lógica única da proteção do passado e seus bens centenários, abrindo-os para novos parâmetros culturais. Foi o descortino de José Aparecido de Oliveira – que acaba de nos deixar nesse outubro -, então Governador do Distrito Federal, que há exatos vinte anos propôs à UNESCO fazer Brasília Patrimônio da Humanidade. Reconhecendo e consagrando a obra monumental de Juscelino, Niemeyer, Lúcio Costa, Burle Marx, Israel Pinheiro, Athos Bulcão e todo o esforço de uma Nação sintetizada no trabalho dos candangos. “Pólo irradiador de desenvolvimento, obra singular, moderna, única cidade construída no século XX a partir do nada, ex-nihilo, para ser a capital de um país, constituindo-se assim em magnífico exemplo histórico”.

E dessa construção, que por sua ousada qualidade tornou-se história ainda no presente, podemos tomar o alentador paradigma para novas e necessárias empreitadas em nosso país.

A realização da Copa do Mundo no Brasil é uma boa oportunidade. Pode e deve ser um catalisador de melhorias em nossas capitais. Seremos desafiados a alcançar um alto padrão de eficiência em segurança, transporte e atendimento. Se bem executada poderá logo de início dar impulso ao turismo, a partir do momento que obras de infra-estrutura sejam conduzidas adequando o país não somente às exigências momentâneas do evento, como também às expectativas permanentes de quem soube gerir um mega-projeto.

O futebol é cidadania, cultura e alegria; pelo seu forte apelo popular, fator de inclusão, coesão e deslocamento do risco social. A Copa do Mundo condensa tudo isso, mas se apresenta também como um grande negócio. É uma maneira de injetar no país capital estrangeiro que não seja de mera especulação. Incentivar investimentos com expectativas duradouras de retorno e parceria; esses geram mais empregos e deixam um legado sólido, palpável e desfrutável enquanto o outro simplesmente pode deixar o país em uma das intempéries dos humores do mundo (incontroláveis, ou intermitentemente descontrolados), legando apenas o vazio onde se alojara.

É um bom sinal que o mercado brasileiro tenha seu volume notadamente inflado e formado por capital estrangeiro. Mas não esqueçamos que uma das premissas para que isso se assente como verdade e não simplesmente esvoace em sua natural volatilidade, é a concretização do que se especula no mundo e aplica-se na Bolsa: chegou a hora do Brasil crescer. Especuladores podem apostar alto nisso, mas há um stop loss de retirada intrínseco a essa lógica, que nos seria muito traumático; pela própria queda, como pela angustia por ter perdido a oportunidade. O Brasil não pode falhar, deixando de aumentar o grau e a qualidade de sua inserção no mundo – e reciprocamente.

Assim como Brasília hoje está ao lado da Praça Vermelha e de Roma como Patrimônio da Humanidade pelo vigor construtor dos seus povos, a Torre Eiffel, Barcelona e o Parque das Nações em Lisboa são símbolos do revigoramento por eventos internacionais. Enquanto a UNESCO veio ao Brasil para nos ajudar a preservar o que é de excelência, a Copa do Mundo pode vir para trazer modernização ao que é ainda precário. Que as modalidades da afeição esportiva nacional contaminem positivamente as modalidades das afeições políticas e empresariais. E tenhamos artilheiros também fora do campo.

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