Juízos sem juízo

22/10/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 21 de outubro de 2012.

Jimmy Carter é plantador de amendoins, marinheiro, Nobel da Paz e há alguns anos monitora e certifica processos eleitorais no mundo. Homem de boa índole, não se reelegeu presidente dos Estados Unidos porque o governo iraniano fez o favor de patrocinar um longo sequestro de cidadãos norte-americanos nas vésperas das eleições e, assim, ajudar os republicanos a derrotá-lo. Agora instalou sua equipe na Venezuela, para acompanhar nada menos que a quarta reeleição do mesmo candidato à Presidência da República daquele país. E achou tudo normal. Num país governado sob conceitos muito particulares de democracia, liberdade e popularidade, onde o sistema eleitoral é usado para perpetuar a nova oligarquia política, o que é “normal”, Mr. Carter?

Consultores e analistas de empresas ao redor do mundo andam espalhando que “o México pode superar o Brasil para se converter no número um da América Latina“. Isto, mesmo com os sessenta mil assassinatos nos últimos seis anos, a violência interminável imposta à população pelos cartéis e traficantes e a volta ao poder da mais atrasada dinastia política da região, o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que fez todos os presidentes da república durante mais de 70 anos e nunca deixou de ser hegemônico.

A presidente da Argentina anda fazendo um esforço sobrehumano para encontrar culpados para sua má gestão, que aumentou a pobreza do país, destrói a indústria nacional, recrudesce a inflação, amplia o desemprego e reduz a zero o papel da educação numa nação tão culta. Acusada de deputada “vendepatria” quando apoiou a privatização da companhia de Petróleo, mudou de opinião e agora, após herdar a presidência do marido, a expropriou dos espanhóis. Anda enfurecida com a liberdade de imprensa, cria caso com as importações brasileiras e sempre que pode faz e aceita provocações da Inglaterra sobre a soberania das Malvinas.

A América Latina continua um subcontinente marcado pela fraqueza institucional que não se dá conta da realidade da política moderna. Seus países adotam mais versões do que fatos e não conseguem esconder os desacertos que a má política exerce sobre os orçamentos nacionais. Se a região não for capaz de encontrar uma maneira de fazer a política voltar a ter influência racional sobre questões econômicas cada vez mais internacionais, um futuro de crise será igual para todos.

Claro que já avançamos muito, enterrando ilusões de expansão colonial e guerra entre vizinhos. No entanto, ainda prevalece um certo prestígio das decisões ideológicas, do isolamento como alternativa e de um carregado discurso imobilizante sobre onde, de fato, se assenta a honra nacional e que, no fundo, só serve para continuar tratando dificuldade como virtude. Com isso, nem sempre as decisões políticas estão ancoradas em sólidas razões econômicas ou no desejo de resolver, coletivamente, as necessidades urgentes de todos os países.

Esses juízos sobre o México são parte do ciclo de má vontade internacional com o Brasil. Investidores e especuladores não conseguem esconder que havia mais simpatia na época dos juros altos. A única chance que o México tem de superar o Brasil é se nós pararmos de andar ou se os EUA derem um pé na China e voltarem a fazer do México a China deles. Só que atualmente nem a China quer mais ser a China dos outros… E o que os EUA querem mesmo é internalizar de novo a produção industrial por causa de desemprego, e não simplesmente parar de comprar da China para comprar de outro.

Fora isso, o México, em sua flagrante dependência dos EUA, é institucionalmente mais frágil e conjunturalmente menos afortunado que o Brasil. De fato, a competição deles, pelo mercado americano, é com a China. E do ponto de vista estritamente prático, o México tinha tudo para sair ganhando: afinal eles são colados nos EUA, enquanto a China fica a um oceano de distância. Mas quem não sabe o quão complicado é o México? Até mais do que o Brasil.

A tendência de ameaçar o Brasil com o sucesso de seus vizinhos é velha mania mundial. Ora, quanto mais ricos ficarem nossos vizinhos, melhor para nós ! Só o Brasil ameaça o Brasil. O Brasil e a pobreza política e social da região. Péssima nesse momento para nós é a tragédia da Argentina, cada vez mais afundada na marginalidade mundial. O Brasil hoje concentra metade do PIB da América Latina (47,4% exatamente) com menos de 35% da população. E a tendência é aumentar a concentração, mesmo que isso signifique que o país, em números totais, fique menos rico do que se todo mundo tivesse indo pra frente.

O problema do Brasil com os vizinhos não é que eles estejam bem, é que eles estão mal. E isso sim nos atrapalha. O resto são juízos sem juízo.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.


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