Governo já negocia eventual substituto de Severino

08/09/2005

Redação Terra

Depois de armar uma estratégia para defender a permanência de Severino Cavalcanti (PP-PE) na presidência da Câmara, o Planalto recuou e já trabalha com a possibilidade de cassação do parlamentar, perante novos depoimentos e documentos que complicaram sua situação. Partidos governistas já negociam com a oposição possíveis substitutos de Severino no cargo.

A eventual saída de Cavalcanti, antes considerada uma ameaça para a governabilidade (o PP pertence à base aliada), já é vista como uma forma de reorganizar as forças do governo federal na Câmara, após a derrota arrasadora, no início do ano, do candidato petista à presidência da Casa, Luiz Eduardo Greenhalgh, graças a partidos como PFL, PSDB, PPS, PDT e PV – os mesmos que agora articulam a cassação de Cavalcanti no Conselho de Ética.

Severino é acusado de cobrar “mensalinho” de R$ 10 mil para prorrogar contrato e rolar dívida do empresário Sebastião Augusto Buani, concessionário de um restaurante da Casa. Buani negou inicialmente a acusação, mas a situação de Cavalcanti se agravou na última terça-feira, quando Veja publicou um documento, supostamente assinado pelo deputado, alongado irregularmente a concessão do serviço. No mesmo dia, Izeilton Carvalho de Souza, ex-gerente do empresário, reiterou as acusações e entregou a suposta “prova” à Polícia Federal. Nesta quarta, apresentou alegadas testemunhas das acusações, entre elas um garçom que seria um dos responsáveis por entregar o “mensalinho” a Severino.

Agora, a ordem é buscar um nome de consenso, capaz de dar seqüência ao processo de “limpeza” da Casa, na qual 18 parlamentares respondem a processos por quebra de decoro devido ao escândalo do “mensalão” e caixa dois. Oposicionistas já aceitam a possibilidade de um partido ligado ao governo assumir o posto hoje ocupado por Severino. Pelo regimento da Câmara, quem assumiria no lugar dele é o vice-presidente José Thomaz Nonô (PFL-AL). Ele ficaria à frente da Casa durante cinco sessões plenárias, até a convocação de novas eleições.

Governistas já começaram a estudar uma lista de nomes, que incluiria Beto Albuquerque (PSB-RS), vice-líder do governo, além de Paulo Delgado (PT-MG), Arlindo Chinaglia (PT-SP), José Eduardo Cardozo (PT-SP) e Sigmaringa Seixas (PT-DF).

Lula, que inicialmente coordenou a defesa de Severino e considerou o movimento da oposição uma “manobra” para desestabilizar o governo e as instituições democráticas, teria afirmado, durante o feridado do Sete de Setembro, que “é necessária uma explicação contundente senão já era”, supostamente se referindo à delicada situação do deputado federal.

Paulo Delgado , amigo do presidente da República e possível sucessor de Cavalcanti, falou na mesma linha sobre o assunto durante o desfile da Independência, em Brasília: “Em política, o ônus da prova cabe ao acusado”, declarou, parafraseando o próprio Cavalcanti, que, de Nova York, dizia que é o acusador quem tem de provar as denúncias.

O presidente da Câmara deu três versões sobre o contrato nesta quarta-feira, em Nova York (onde participa da 2ª Conferência Mundial de Presidentes de Parlamentos na ONU). Em todas, negou qualquer envolvimento em irregularidades, mas não melhorou sua situação. Ele requereu uma sindicância para apurar a denúncia na Câmara, também investigada pela Corregedoria, Polícia Federal e Tribunal de Contas da União (TCU).

Representação

A oposição adiou até a próxima terça-feira o encaminhamento de representação contra Severino no Conselho de Ética. De acordo com o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), a decisão de postergar a medida foi negociada com o próprio governo, que teria pedido tempo para avaliar o andamento da crise e conferir se as acusações serão comprovadas. Em caso positivo, diz Jungmann, os governistas deverão também assinar o documento.

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