Cisnes selvagens

19/11/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 18 de novembro de 2012.

Toda sucessão na China tem o ar das dinastias e o andar das gerações. De longe, parece o tranquilo deslocamento de um cisne pelas águas; de perto, lembra o tempo em que as mulheres eram obrigadas a esmagar as articulações dos pés para que seu andar tivesse a graciosidade dos cisnes sobre o lago. O 18° Congresso do Partido Comunista chega ao fim com troca de comando, sem troca de poder.

Xi Jinping, que vai acumular os três principais cargos políticos do país – secretário-geral do PCC, chefe das forças armadas e presidente da república – nasceu em 1953 enquanto seu pai era o secretário-geral do Conselho de Estado. No jargão chinês, é um principezinho, alguém cujas credenciais de poder são oriundas da memória revolucionária do pai. No caso da família Xi, a história do patriarca não explica apenas a legitimação política do filho (bem como o sucesso financeiro dos demais herdeiros), mas um destino por trás do estrondoso êxito recente do país.

Xi Zhongxun, o pai, lutou ao lado de Mao Tsé-Tung durante a sangrenta guerra civil que precedeu a criação da República Popular da China. Isso após ter sua vida poupada por Mao no episódio em que se desentendeu com líderes militares pouco antes da chegada da Grande Marcha à província de Shaanxi. Mao não apenas salvou a vida de Zhongxun, como o promoveu na hierarquia comunista. Tempos depois, já estabelecida a República Popular, o pai de Xi Jinping foi, contudo, expurgado, durante a Revolução Cultural, pelo mesmo Mao, e a família passou anos separada e em regime de trabalho forçado na zona agrária. Na ocasião, ao consagrado líder do 18º Congresso só restou ser lavador de porcos.

Mas como em política ninguém nunca está clinicamente morto, um mês após o mais devastador terremoto do século XX levar a vida de centenas de milhares de pessoas a leste de Pequim, Mao morreu e, assim, começou a nascer a nova China.

Após Mao, Deng Xiaoping – três vezes expurgado e reabilitado – assumiu a liderança do país em 1978, dando início ao ciclo de reformas que levariam a China à feição atual. No mesmo ano, Xi Zhongxun foi reabilitado e enviado para colocar em prática a faceta mais explícita do novo “socialismo com características chinesas”, como Deng apelidou o capitalismo que renascia no país.

À frente da província de Guangdong, Xi pai foi responsável por inovações institucionais que juntariam o capital das endinheiradas Hong Kong e Taiwan com a aparentemente infindável e barata mão de obra local. De lá pra cá, Guangdong é a província chinesa que mais enriqueceu. Aplicando com maestria o mantra de Deng de que “enriquecer é glorioso”, Xi Zhongxun solidificou sua influência na política do país e pavimentou a legitimidade para a atual ascensão do filho.

Para além de modelos econômicos, o Politburo de 7 membros é um ajuste complexo entre grupos de poder que, no embate e acomodação, ao longo da última década tornaram Xi Jinping o líder ungido como denominador comum. Da fricção entre o grupo que se formou em torno de Hu Jintao e o grupo que orbita em torno da influência pessoal do ancião Jiang Zemin, mais os diversos principezinhos amparados por legitimidades herdadas, cresceu a estrela de Xi Jinping, sempre iluminada pela simpatia do grupo de Jiang, pelo respeito por Hu e por ser bem familiarizado com os demais herdeiros. Na cabeça do país sobrevive apenas outro remanescente da atual estrutura: Li Keqiang, muito ligado ao presidente que sai. A dissolução do poder neste ano traz relativa novidade. Por um lado reafirmará a necessidade de se governar por consenso, mas, por outro, acabará possibilitando ao novo presidente capacidade executiva (e de liderança pessoal) maior do que os dois últimos presidentes, Hu e Jiang, tiveram.

Externamente, o país deverá se esforçar para encontrar o equilíbrio entre a natural projeção de poder que o sucesso econômico traz e a velha ordem de Deng para que se mantenha discreto. Os desafios são grandes para a nova geração que assume essa que é agora uma gigantesca potência econômica, mas onde subsistem graves problemas sociais e à frente da qual cresce uma complicadíssima conjuntura externa. A China, que cresceu durante as últimas décadas voltada para saciar o consumo mundial, deve buscar nos próximos anos aumentar e distribuir mais o consumo interno.

Essa geração que vai conduzir o país na próxima década é a última que chegou ao poder tendo sobrevivido à Revolução Cultural. Xi Jinping mesmo, que atribui seu pragmatismo às memórias de seu tempo de esforço no campo, passou mais da metade da vida já na China pós-78. São todos conscientes de que o mundo ouve cada vez mais a voz chinesa. Mas sabem bem que o desafio para quem é ouvido é ter sabedoria para decidir o que tem a dizer.

 

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PAULO DELGADO é sociólogo.

 

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