Cinco anos depois

02/12/2007

Ao estado basta fiscalizar a fábrica de relógios, não pretender controlar todas as horas

Quem é credor da confiança é devedor da esperança. Num continente onde a demanda por lideres populares para empreitadas anacrônicas culmina quase sempre em demagogia, autoritarismo, ditadura, boçalidades de toda ordem e desordem, os cinco anos do Governo Lula colocam nosso país degraus acima do patamar da América Latina.Um grande trunfo melhorar nossos indicadores sociais. Enfrentando a atravancadora burocracia do desigual e hierárquico estado brasileiro, fortalecendo os ideais mais universais e igualitários que brotam da sociedade, poderá, ao fim dos oito anos, patrocinar, estimular e não deter um profícuo período em nossa história. Para isto é preciso não ver a democracia como momentos, mas construção permanente, nem exaurir no presente o investimento que só se colhe no futuro.

Tendência geral dos governos do mundo moderno, a formulação e direção dos empreendimentos públicos por cálculo político e pesquisas de opinião, diminuem o impacto do clamor por mudança e limitam a circulação, sem interdições, do debate de idéias e projetos de desenvolvimento. Restituir o sentido de um projeto nacional é urgente. Como o foi o esforço político para produzir a estabilidade e a previsibidade econômica que vivemos desde o plano real, moeda da nossa maturidade como nação com fundamentos econômicos.

O Brasil precisa saber o que quer ser, para crescer para além das variações do PIB. Precisa exigir a mudança da intraduzível e artificial diversidade da política parlamentar do presidencialismo de cooptação, pouco afeita à discussões de longo prazo e sempre interessada em capturar eleitores para micro projetos de poder.

O centro da questão brasileira continua sendo as amarras da convivência entre estado e sociedade. Os poderes da União desconfiam e conspiram contra a vitalidade da sociedade civil. Não querem correr o benigno risco de se renovarem, criando regras estáveis e compreensíveis fora do patrimonialismo secular que nos domina.

A democracia, também, precisa de reavivamento, pois andam contaminados governo e oposição. Não que ela esteja moribunda, é visível que não, mas sem projeto nacional estratégico o dia a dia a confunde com este ambiente de rixa, agravos de um grupo sobre outro. Estímulo permanente ao mercado de inimigos políticos onde uns respondem aos outros com muita reação, pouca explicação para fatos e problemas. Devíamos ter igual desconfiança do amigo que sempre louva e do inimigo que sempre detrata. Uma boa fórmula para não sobrecarregar a vida democrática e os tribunais.

O sistema público, entre nós, não se preocupa em regular o ambiente estatal para o convívio com a sociedade e é avesso a trabalhar com parcerias. A cultura é de convênios, onde, na maioria das vezes, o estado suspeita da oferta e dos conteúdos do associado. Daí a mania de querer surpreender a sociedade, e suas instituições, com projetos de adesão ou imposição, para pontificar sobre o ambiente civil. A boa parceria contém a diversificação de riscos e introduz princípios de responsabilidade social às iniciativas público-privadas. Dispensa o vigor de um estatismo retrógrado. As políticas de natureza estatal não são suficientes para incorporar toda a criatividade e dinamismo da sociedade moderna. Ao estado basta fiscalizar a fábrica de relógios, não pretender controlar todas as horas.

Governar é corrigir, executar, com base em princípios e oportunidades. O temor do contrismo (ser contra tudo e todos), que barrava a eleição, arrefeceu frente à demonstração de Lula de que não abarcaria o Brasil com tal temeridade. Com sabedoria não subiu ao planalto como caudilho, como gostam alguns de nossos vizinhos. Agora se vê às voltas com o mesmo temor das reeleições de ocasião. Seu governo tem mais um trunfo a ser colhido. Não ceder às lisonjas temporais do poder, cometendo contra a boa tradição republicana, o maior erro que seu antecessor cometeu.

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