Bomba-Relógio

30/01/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 29 de janeiro de 2012.

Um conjunto de opressões encontrou no Haiti o seu destino. Um só rebanho, nenhum pastor conduz aquele povo para fora da devastação social, política, econômica e geológica de sua nação, a mais previsível bomba-relógio do Ocidente.

Sob domínio espanhol, inglês ou francês, as águas cristalinas e quentes e o céu azul fizeram da região do Caribe — submersa, como Port Royal (Jamaica) no século 17, ou liquefeita, como Porto Príncipe (Haiti) em 2010 — o mais importante sítio arqueológico das catástrofes naturais e políticas do mundo ocidental. Falhas geológicas, furacões e terremotos competem em igualdade de condições com golpes de Estado, intervenções militares, bloqueios econômicos e a instável presença da arrogante política internacional.

Ai de ti, o Haiti, como país, não existe. Seu povo já não tem mais interesse nenhum na vida pública. Tudo parece falso. Um local de sobreviventes, onde a pobreza e o abandono são tão reais que é impossível produzir estatísticas sobre mortes, crianças, doenças, classes sociais, atividades econômicas. A população não sabe o que fazer diante de tamanho abandono, atrás dos escombros que ainda estão pelas ruas e da profundidade cada vez maior do buraco à sua frente. Agitados, se põem em movimento constante em busca de um comercio precário, fiapos de atendimento médico prestado pelos Médicos sem Fronteiras, tarefas domésticas básicas como cozinhar e lavar roupa, feitas nas ruas. Convivem, ainda, com lixo e gangues de todos os tipos, catástrofes da mais pura violência cotidiana.

Uma sociedade que finge acreditar que possa sobreviver sem plano de reabilitação nacional, política de habitação, estrutura de proteção civil ou algum sinal da presença oficial. O Haiti transformou-se no maior laboratório do assistencialismo mundial e é hoje um país de tendas, barracas de plástico, uniformes, coletes e siglas de organizações do mundo todo. E está dividido: entre continuar entregue à tutela da comunidade internacional ou manter-se submisso à ganância de governos locais corruptos, que se apropriam dos fundos de emergência para fazer política pessoal e fortuna familiar. Sem falar da manipulação das mais de 10 mil ONGs que se enfiaram no país por motivos os mais diversos. O resultado é que o Haiti ferve com a epidemia de cólera, fome, desemprego e abandono.

Um país frágil, sem condições de oferecer serviços básicos, segurança pessoal, proteção à propriedade, justiça, torna-se logo falido e inviável. Estrangulado pela falta de perspectiva para se recuperar de forma independente, tem sua vida agravada pela erradicação do pensamento livre que os anos recentes de intervenção norte-americana e francesa promoveram. O que restou é um país onde predomina a resignação política e religiosa, imposta do estrangeiro. O terremoto de dois anos atrás completou a tarefa de expor, ainda mais, a falta de legitimidade da política e dos líderes nacionais. Asfixiado, o Haiti não pertence mais aos haitianos.

Entre a falta de perspectivas de mudança e o medo do futuro, muitos haitianos tentam a diáspora, agora em direção ao Brasil. Confiantes de que são bem-vindos pela boa imagem que nossas tropas deixaram no país como líderes da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah). Assentados sobre uma falha geológica que provoca os mais catastróficos terremotos da Terra, até poderiam requerer dos países para onde migram a condição de refugiados ambientais. Não fosse o inevitável pendor político do país para a autoimplosão, seria também possível alegar perseguição por razões religiosas, étnicas, políticas, violação sistemática dos direitos humanos, agressão estrangeira. Mas não é essa a alegação. Quem sai do Haiti é impulsionado pela mais antiga motivação humana: a esperança de viver melhor. Ninguém é apátrida, ou duvida de que, se for desmontada a explosiva situação local, voltarão com maior esperança.

O Haiti pode voltar a ser a economia turística que foi nos anos 1950, disputando com Cuba e Porto Rico a preferência de quem viajava ao Caribe. Mas é preciso mudar o controle e a direção do fluxo dos capitais globais movimentados pela solidariedade e pela caridade mundial; e colocá-los mais sob controle do próprio país. No entanto, contra tal movimento concorrem a má reputação e a mentalidade dos empresários e ricos daquela nação. Uma fração inferior a 3% dos habitantes controla mais de 80% da parca riqueza e, tradicionalmente, apoia ditadores, paga salários aviltantes e não investe na economia local.

Com seus mercenários, missionários, espoliadores, benfeitores, o Haiti vive as agruras da algazarra pós-colonial. Toussaint L’Overture, o Napoleão Negro, herói que aboliu a escravidão e proclamou a independência, imaginava vencê-la. Traído, morreu nas masmorras da França imperial, onde não descansa até hoje.

Paulo Delgado é sociólogo. Foi deputado federal.

Correio Braziliense

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