Avenida Foch 42

02/08/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 29 de julho de 2012.

Realizar o objetivo de pintar o dia a dia com iluminada intimidade fez de Pierre Bonnard o Proust das cores francesas. Observador atento da sutileza da forma, o artista driblava a vigilância de museus, munido de tintas e pincéis escondidos sob o casaco, para retocar seus próprios quadros. Quem poderia imaginar que um precioso Bonnard viesse compor o inventário de desatinos de mais uma família de tiranos impunes?  Depois de um ano e meio de investigação, o juiz parisiense Roger Le Loire, especialista em casos de bens mal adquiridos, mandou prender Teodoro Obiang, conhecido como Teodorin, filho do presidente da Guiné Equatorial. Convocado há poucos dias para um primeiro interrogatório, anterior a seu indiciamento, Obiang júnior não se apresentou. Ele já não havia dado bola para a primeira convocação, em março. A imprensa francesa noticiou que, nos termos da ordem de prisão, “TNO” pode ser detido em todo o espaço judiciário europeu e extraditado para a França.

Além dele, os juízes de instrução estão de olho em outros dois chefes de Estado africanos (Congo e Gabão), que também andam na farra com dinheiro dos outros e adquirindo suntuoso patrimônio na França. É o de sempre… E muito característico de algumas partes do mundo a política servir como expediente para a formação de cleptocracias sem freios. Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, pai de júnior, é ao mesmo tempo governante de um povo empobrecido e um dos maiores magnatas da África, empoleirado em barris de petróleo. A polícia francesa acusa Teodorin de desvio de fundos públicos, lavagem de dinheiro, uso privado de bens sociais e abuso de confiança. É o velho estilo nouveau riche, esse tipo que se forma no meio de riqueza sem trabalho e tem mania de rasgar dinheiro como se fosse capim.

O moço, que vive de festas pelo mundo, deu muito na vista quando decidiu colecionar carros esportivos de extremo luxo, além de centenas de móveis e objetos de arte, todos estacionados e posicionados num suntuoso imóvel de uma vizinhança pra lá de rica. Estarrecido, viu tudo ser apreendido durante uma espetacular batida policial no palacete de mais de dois mil metros quadrados, 6 andares e 101 quartos, na luxuosíssima Avenida Foch 42, em Paris. A investigação apurou que os Bugatti, Maserati, Rolls Royce, Bentley, Aston Martin V600 Le Mans (um exemplar dos únicos 40 que existem no mundo), entre outros, além dos quadros e móveis de museu, foram pagos por empresas que legalmente lucrariam muito menos do que os gastos que autoriza. O dinheiro também vinha de transferências de uma conta de Obiang filho intitulada “Présidence Malabo”.

Fora os carros que chegam a custar individualmente quase dois milhões de euros, o que mais de tão interessante faz o jovem quando vai às compras que despertou tanto a curiosidade da justiça para a origem de sua fortuna? Segundo o inquérito do Escritório Central de Repressão à Grande Delinquência Financeira, de uma só vez o poderoso mandou buscar 300 garrafas do vinho Château Pétrus pelas quais pagou 2,1 milhões de euros. Outra sua mania é jogar dinheiro fora na compra de relógios de luxo. Um punhado de Piagets, um com 498 diamantes que custa mais de meio milhão de euros, além de outros Rolex, Cartier e Chopard. Tudo para ver melhor o tempo passar enquanto a vida arrasta agonizante para a maioria da paupérrima população de seu país de vastas riquezas naturais.

Diz ainda o inquérito citado por toda a imprensa francesa que o decorador Dominique Le Marquier, contratado por júnior para arrumar seu domicílio parisiense, cobrou 11 milhões de euros pela repaginada. Durante os dois anos de duração da reforma, o decorador percorreu lojas e leilões comprando o que havia de mais fino para seu cliente. Só num antiquário na rua do Palácio do Eliseu se foram 2,1 milhões de euros… O orçamento, estipulado por Obiang, foi sendo pago ao longo da obra e uma parte era em dinheiro vivo, normalmente entregue por funcionários da embaixada da Guiné. Foi o Sr. Le Marquier que lhe apresentou, para a aquisição, uma tela em tom pastel de Degas, “As três dançarinas em repouso”, pelo preço de 5,6 milhões. Um pouco menos foi pago por alguns Rodins e um delicado Bonnard.

O advogado de Obiang afirmou ao Le Monde que essa conversa de abuso de bem social não existe na Guiné Equatorial. Por via das dúvidas, mês passado Obiang júnior foi nomeado pelo pai, no poder há mais de 30 anos e reeleito sempre com mais de 94% dos votos, “segundo vice-presidente encarregado da defesa e da segurança”, para que, com o status de chefe de Estado, se esconda atrás da imunidade diplomática. E não seja preso no número 42.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.


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