A pressa urbana

04/07/2011

O Globo, 4 de Julho de 2011.

Não é ofício, habilidade ou solidão que levam qualquer um a sentir, alguma vez na vida, a necessidade da compaixão.

William Burroughs assegura que quando um gato de rua encontra um protetor humano que o promova a gato de casa, ele costuma exagerar da única maneira que sabe: ronrona, se aconchega e se esfrega, e rola de costas para chamar a atenção. Seu dono costuma achar um incômodo. Todos os relacionamentos são baseados na troca, e todo serviço tem seu preço. Mas quando o gato adotado fica tranquilo de sua posição, ele se torna menos efusivo, que é como deve ser no seu reino e como se comporta qualquer pessoa que esteja segura que é respeitada e amada.

A arte nada pode fazer contra a maldade. Música, pintura, literatura ou poesia existiriam independentemente dessa corrida de ratos que é a competição pela vida. Quem aceita ser apresentado a alguém que seja nenhum, ou ninguém? A vida plana e rasa do interesse impregnada de vazio. Mergulhos completos na superficialidade, sem traço qualquer de altruísmo. Contatos imediatos de um mundo em desamadurecimento. Performances e monólogos como se fossem diálogos consumidos com voracidade e pressa. Quem dera fossem rostos de Arcimboldo, o artista renascentista que com flores, bichos, legumes e peixes compunha a cara das pessoas segundo as estações do ano. Hoje cada vez mais desprovidas de espírito, cheiros e sabores. Quem é capaz de saber que é época de manga ou goiaba? Quem merece o quinhão de insultos que as cidades distribuem tão desigualmente?

O mundo da pressa é péssimo organizador dos assuntos humanos. É o arquiteto das cidades gueto, fechadas, corporativas, unifuncionais, drogaditas.

A poupança e o espírito de comunidade só atenuam a miséria dos educados para isso. A maioria não tem saída e raspa o tacho da vida todo dia, até o fundo. Alguns pressentem que são aparentes os triunfos de quem só usufrui. Pois não é mais pelo conhecimento que se chega à conduta e ao comportamento. É o ir fazendo, mudar de opinião, navegar entre princípios conflitantes que definem a vida moderna. E como consequência o mundo de lixo e sucata que sobra pelo caminho. São jaulas que conformam os gostos, criam e destroem profissões, vocações e atividades.

Não é pois um mistério que tantos busquem a pressa da estabilidade, carreira, tetos e pisos no emprego público. Mas ninguém se acostuma com a angústia dos filhos em busca de concursos irracionais e a suspensão da vida que isto acarreta. Que tipo de autoridade pública pode nascer de armadilhas, conteúdos e perguntas tão íntimos de bobagens? Quem julga a banca que leva razão e normalidade ao fracasso, e cozinha sonhos, revolta e solidão? Só passa quem pode parar de viver, ficar sem trabalhar e adoecer da doença da banca. Será que recebe mais o formulador da pergunta estúpida que provoque mais erros e conduza mais jovens ao desespero e à desmoralização? Provas sem vestígios de grandeza contribuem para diminuir a qualidade pública dos profissionais recrutados. O estudo como desrazão. A carreira de Estado como um vazio encomendado.

Outros já foram capturados pela pressa do mundo das drogas. Entorpecidos sem utopia, comércio puro, sucata de signos e símbolos de libertação. Só pode ser enfrentada com razão e acolhimento, cuidado e serviços abertos, como são saudáveis as ruas iluminadas e cheias de calçadas, lojas, livros, flores, presentes, utilidades e música. O mapa urbano da vulnerabilidade dos jovens já é muito conhecido. Corpos acelerados pela dinâmica da vida, acima da capacidade biológica de suportar desintegração, dilacerados por sintomas de solidão e sofrimentos diversos não serão salvos sem diálogo, por tratamentos compulsórios, remédios para a vida inteira e encarceramentos e exorcismos falsamente terapêuticos.

São a pressa e a solidão os maiores sintomas que ameaçam a felicidade urbana. Ainda que todos imaginem que sozinho se vai mais rápido, é junto que se vai mais longe.

Paulo Delgado é sociólogo.

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