Visite Koblenz

27/02/2017

Correio Braziliense e Estado de Minas –  domingo, 05 de Fevereiro de 2017.

Para o historiador inglês, Simon Schama, a Holanda, no século XVII “era uma ilha de fartura num oceano de privações”. Império que chega a um fim recolhido e nada estrondoso na passagem para o século seguinte, porém mais equilibrado sob as luzes do iluminismo.

A Holanda, espalhada no delta do rio Reno, é um dos países que melhor lidaram com a sequência de ascensão, ápice e queda de seu poder imperial. Nos seus anos dourados dominou por duas décadas e meia um pedaço pequeno do Brasil, onde até hoje é possível encontrar reflexos dessa época. Sua liderança foi boa para a Europa e sua passagem por nossa terra não foi ruim para o Brasil.

Dos países que foram império – como Portugal, Áustria, Espanha, Inglaterra – é o único que não se ressentiu do ostracismo. “O embaraço das riquezas” é o título do livro de Schama. As virtudes forjadas na Holanda sabiam bem a noção de transitoriedade e dignidade. Sobre tal base permanece até hoje, discretamente, como um dos países mais poderosos em termos financeiros e comerciais do mundo global.

Mas eis que a onda soberanista chega à Holanda. E é constrangedor ver um partido populista conservador crescer dizendo que é um risco acabar a mal definida hegemonia étnico-cultural do país. Não tanto pela presença de seus territórios ancestrais, não pela força do nacionalismo linguístico que não se afirmara nem frente ao francês no passado, muito menos ao inglês atual. Ainda menos pela impossível ameaça latina, de franceses ou ibéricos, nem mesmo de eslavos, onde os caprichos da liderança russa sempre foram admirados. O que a Holanda não aceita é ver-se reduzida à impotência diante do mundo asiático ou árabe que avança sobre a Europa como uma cruzada fora de hora.

Desnorteados, é mesmo no exterior que nacionalistas buscam razão. Visite Koblenz e confira. É uma cidade alemã com ocupação humana milenar, localizada no ponto em que o belo rio Mosela, nascido na parte francesa das montanhas que hoje separam França e Alemanha, se junta ao Reno, rio maior do folclore germânico. Das Rheingold (O Ouro do Reno) é a espécie de Gênesis lapidado pelo compositor Richard Wagner para espelhar aquela cultura. A arte e a criatividade daqueles que se alimentam da autoestima de suas fundações é normalmente rica e fundamental para que o humano projete suas aspirações mais amplas. Todavia, pode tornar-se uma doença, refratária ao espelho para quem se vê como decadente.

Simbologia explícita dos conservadores atuais, aspirantes ao poder e à liderança no mundo moderno, confluíram para Koblenz no final de janeiro. Estavam lá Frauke Petry do Alternativa para a Alemanha, Matteo Salvini da italiana Liga do Norte, o holandês Geert Wilders do Partido para a Liberdade. Como não poderia deixar de ser a provocativa patuscada teve como estrela principal Marine Le Pen, a francesa que faz algum tempo é a herdeira de quem começou há mais tempo a insistir publicamente que as ondas de extrema-direita bateriam forte nos corações europeus.

Usam e abusam da palavra liberdade, mas erguem-se sobre plataformas que odeiam o laissez-faire. Querem liberdade para fazer o que querem e proibir que ocorra o que não querem. Tais devaneios, incorretos e ilógicos, carregam também a perigosa visão de afirmação de diferenças sobre igualdades. Forte demais para a vaidade, fraco demais para a verdade o discurso de Le Pen viaja pelo mundo tentado trocar a liberdade de todos pela estabilidade de alguns. Escolhas por conveniência. Como pode uma pessoa que almeja governar a França querer a Gália mais anglo-saxã do que latina?

A principal onda do momento é a Holanda e lá Geert Wilders. Seu partido lidera as pesquisas, em meio a uma fragmentada eleição. Sua cabeleira e sua islamofobia são o que o distinguem. Foi a Koblenz dizer que as mulheres na Europa “estavam com medo de mostrar seus cabelos loiros”. Caricatura conservadora do Black Power, Wilders é o Blonde Power.

Ainda bem que Willem-Alexander, o rei – que é profissionalmente especialista em água e recreativamente amante de cerveja a ponto de ser chamado de Pils – é uma figura apaziguadora.

A Holanda, atenta ao enredo atual, com medo de hackers de todo tipo, vai contar manualmente os votos de sua eleição nacional em março. O temor é não assegurar a percepção de legitimidade da democracia.

Toda a aceitação a ideias dos pequenos grupos deve ter base na liberdade, essa diva que exige acordos de iluminação global. Como o sofisticado Beethoven e sua “Ode à Alegria”, o belo trecho da 9ª sinfonia, adotado como hino oficial da União Europeia. Na história de Koblenz há mais verdade do que pensam políticos isolacionistas.

 

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PAULO DELGADO é sociólogo.

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