Uma fábula humanista

17/09/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 16 de setembro de 2012.

Um bom filme pode bem significar um esconderijo temporário para ideais humanistas. A boa ficção pouco tem a ver com a criatividade dos meios de comunicação, a publicidade comercial ou a simplificação dos slogans políticos. Sua natureza é enfrentar os problemas verdadeiros e ultrapassar o mundo da opinião, dos conselhos e das discussões. Pode ser, inclusive, revolucionária, por tornar visíveis coisas obscuras, sem precisar, para isso, recorrer à pretensa clareza e certeza dos panfletos. O cinema tem um quê de filosofia.

Na Europa, de forte tradição colonial, os imigrantes dificilmente se integram à vida do continente. Apesar da evolução do sistema político e do contraste humanista de seu sistema cultural, a desconfiança entre pessoas, povos e raças permanece. No inverno passado, a França se emocionou com a versão cinematográfica da história real de um milionário tetraplégico que contrata um improvisado assistente argelino. E foi pela sincera amizade que entre eles se estabeleceu que o que poderia ser o encontro de dois infelizes tornou-se uma alegria. A história vertida para o cinema funciona, nos argumentos de crítica publicada no jornal Le Monde, como metáfora de uma “França imobilizada socialmente e que precisa de imigrantes a quem, no fundo, discrimina”. Numa das melhores cenas do filme, na festa de aniversário do patrão aristocrata que está preso à cadeira de rodas, o impulsivo cuidador dança com prazer, sintetizando o melhor da amizade: “dança não para o outro, mas pelo outro”. Generosa com perseguidos políticos, a quem concedeu exílio, a França continua com dificuldades de encarar imigrantes vindos do próprio passado colonial.

Montesquieu dizia que se deve bem conhecer os preconceitos de seu tempo para não chocar-se com eles nem segui-los demasiadamente. Montesquieu viveu na primeira metade do século XVIII, onde pululavam ideias racistas, classistas e demais formas de separação social. O filósofo, cujas ideias provocaram grande avanço nas instituições da sociedade, não escapou, no entanto, ao espírito de seu tempo, que teimava em definir o caráter e a alma dos indivíduos em função de questões geográficas, feições físicas e origem social. Hoje em dia, a moral dominante, anos luz avançada, preza, sobretudo, por identificar e suprimir os preconceitos. Mesmo que muitos ainda não deem conta da própria postura discriminatória e das novas formas de cisão social criadas a todo instante, especialmente diante da mania que tomou conta do mundo de rotular e controlar tudo.

Mas há também, em todo caso, a possibilidade de aplacar os preconceitos. A França do nosso tempo mantém uma singular curiosidade e abertura ao debate sobre as tensões sociais e caricaturas que povoam o imaginário e o dia a dia das pessoas. É patente como em todas as mídias os intermináveis debates, as análises, as piadas, todos passam invariavelmente por esses assuntos “delicados”. Uma situação geral que de tempos em tempos vira arte. Nada melhor, já que as manifestações artísticas têm o condão de exprimir o espírito de seu tempo. Num ambiente de liberdade poética, muitas delas desvencilham-se da rigidez comportamental e, ao mesmo tempo em que escandalizam, calam fundo ao produzir metáforas e sentimentos que zanzam por aí sem a necessidade de serem logo compreendidos. Dentre as artes, o cinema é aquela que o faz de maneira mais detalhada, explícita e universal, escancarando, por vezes, portas entreabertas do imaginário e oferecendo poderosas possibilidades para a boa vida em sociedade.

O filme “Intocáveis”, que entrou em cartaz em várias salas brasileiras recentemente, é um desses filmes que captam o espírito de seu tempo de maneira comovente e acessível. Sem ser pretensioso ou “politicamente correto”, o filme, que estreou em Paris no fim do ano passado, arrastou um terço da população francesa para os cinemas . Fora da França, o número já supera os 20 milhões de espectadores e desbancou, nesta semana, o também simpático e peculiar “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, a inocente suburbana que só é feliz quando faz a felicidade alheia, do posto de filme francês mais visto no exterior em todos os tempos.

“Intocáveis” é a bem humorada metáfora dramática sobre esse país capturado por uma impensável crise e que tem enorme dificuldade em se encaixar num mundo que lhe fugiu ao controle. Os temas e os sentimentos tratados ali anteciparam toda a retórica que viria à baila nas eleições francesas meses mais tarde. Não foi proposital, mas o público, sendo levado a rir e a chorar, se identificou da maneira profunda. Fenômeno só alcançado por filmes que falam com sinceridade sobre o que já está presente na imaginação de quem compra o ingresso.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.


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