Um gringo no Banco Central

08/12/2012

O Globo – 3 de dezembro de 2012.

São muitas as críticas às recentes contribuições britânicas para a crise e os escândalos mundiais, sem falar da falta de boa vontade e estudada descoordenação para com os vizinhos enrolados da velha Europa. Mas dificilmente pode-se atribuir aos britânicos indiferença diante de teorias ou temor no seu modo de agir.

Numa crise econômica que aumenta os protecionismos e acirra nacionalismos mundo afora, a reação britânica tem sido em muitos aspectos a reafirmação das ideias de uma filosofia moral que, à época, atacava frontalmente o mercantilismo, ora ressurgido. A ilha desde então se abriu para o mundo… Nos últimos anos, enquanto muitos países buscam a solidariedade colegial de blocos, inclusive os EUA, a Grã-Bretanha tem se aberto ainda mais para as trocas internacionais. Dos 15 países com os maiores PIBs do planeta, o Reino Unido só não é mais aberto do que o seu meio-filho além-mar, o Canadá. Os críticos dirão que o custo dessa abertura é que o Reino Unido tornou-se economicamente pouca coisa mais do que seu centro financeiro, e que o Canadá é praticamente um estado americano. Mas dentro da realidade do mundo, será que esses países poderiam se encaixar de maneira melhor? Não há resposta certa. O certo é que são dois países que sabem o que querem ser no tabuleiro global.

Adam Smith em uma de suas aulas sobre jurisprudência exortava que “a liberdade de trocas deve ser permitida com todas as nações e para todas as coisas”. O mais recente auto-de-fé britânico reafirma a crença liberal em sua máxima essência. Numa City sob duros questionamentos e com o país em grave crise econômica de origem financeira, a autoridade britânica finca pé na ideia de que o remédio para os males do liberalismo é mais liberalismo. Ao abrir a posição de presidente do Banco da Inglaterra para a concorrência internacional, os britânicos escolheram um canadense. Para a economia funcionar bem, é preciso buscar o melhor produto ou serviço independente das fronteiras geográficas, pregam os liberais. Aplicar essa lógica a um cargo político como fez a Inglaterra vai além, todavia, dos sonhos mais selvagens de muitos deles.

É de Londres também que vem, em artigo de Philip Stephens no Financial Times, o melhor alerta: “já estou sentindo pena do Mark Carney. Sua indicação para presidente do Banco da Inglaterra trouxe contentamento universal. Uma história que começa assim pode apenas terminar em lágrimas. Políticos de todas tendências cumprimentaram Carney por seus julgamentos inteligentes e comprovadas habilidades administrativas. Economistas atestaram que ele conhece bem os algoritmos de sua álgebra. Banqueiros dizem que, como alguém treinado no Goldman Sachs, ele os entende. Colocando isso tudo de outra forma: os três grupos de pessoas que nos colocaram nessa bagunça sem fim têm certeza que o presidente do Banco Central do Canada é o cara para nos tirar dessa situação.” Como se vê, o humor bretão continua com suas ações em alta.

 

Paulo Delgado é sociólogo.

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