Sonhos e pesadelos

08/10/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 7 de outubro de 2012.

Duas imagens competem pelo lugar emblemático do atual desarranjo espanhol: além dos protestos em avenidas e praças, longas filas de homens e mulheres aguardam a vez de deixar o currículo em lojas e fábricas. “Nem sei do que se trata esse trabalho”, diz o homem ao jornal madrileno El País enquanto espera na fila com outras cinco mil pessoas em frente a uma fábrica no subúrbio da capital, que abriu 150 postos de trabalho. “Mas o que mais dá pra fazer agora?”

Quatro anos após o início da crise financeira, o desemprego é a faceta mais crua do problema e certamente a que produz maiores repercussões sociais. Neste momento, são mais de dezoito milhões de pessoas desempregadas na Zona do Euro. Isso representa 11,4% da população em idade ativa. Na Espanha, país com os piores índices no grupo, o desemprego oficial chega a 25,1%. A situação é especialmente catastrófica entre os jovens espanhóis. Nada menos do que a metade deles, de até 25 anos, estão à procura de emprego e não encontra nenhuma ocupação.

Com desemprego em 23,5% e aumentando, a Grécia, estandarte trágico do descompasso europeu, se aproxima do sexto ano seguido de retração do PIB. Seis anos piorando de vida é um drama traumático para qualquer família, imagine então o desespero das mais de três milhões de famílias gregas vendo a renda nacional diminuir sem trégua.

Por trás desses números desoladores paira, é certo, o espectro da crise financeira que deprime o mundo há alguns anos, mas também o de uma integração europeia improvisada e perdulária. A União Europeia ­– e dentro dela seu núcleo duro, que é a Zona do Euro – é resultado de um conjunto de medidas visionárias que trouxeram paz e prosperidade a uma região onde historicamente imperava o conflito sempre iminente e a desconfiança generalizada. O curto caminho percorrido pela Zona do Euro nos seus treze anos de existência foi na maior parte responsável pelos ganhos de sinergia advindos da utilização de uma moeda comum. Mas muitas das várias alterações que a adoção do Euro provocou na dinâmica e na distribuição da atividade econômica dentro da região – com ganhos, diga-se, para todos os países durante a bonança – não são socialmente sustentáveis numa crise. Especialmente pela diluição desuniforme das perdas, ou seja, perdas não compartilhadas de igual maneira por todos durante a crise. Continuando do jeito que está, mais uma história de esperança pode se tornar o seu inverso, com efeitos nefastos não apenas dentro dos países, mas também entre eles.

O Euro foi criado com a melhor das intenções, mas nasceu com um vício de origem. Apesar dos vários tratados europeus que oficialmente retiraram as barreiras para que o trabalhador possa mudar de um país para o outro, mais ou menos como no Brasil pessoas vão de um Estado para outro em busca de melhores condições de emprego e vida, o fato é que por diversas razões isso simplesmente não acontece na Europa. Além disso, não é possível mais adiar um planejamento conjunto para que as peculiaridades dos países – muito aprofundadas após a adoção do Euro – possam sejam levadas em conta. Uma análise da estrutura dos países da Zona do Euro mostra que eles não são mais países, mas, ao mesmo tempo,  ainda não formam ao todo um grande país. Posicionados na metade do caminho, ficam à mercê de instabilidades, porque individualmente não têm todas as ferramentas que um país comum teria para lidar com crises dessa natureza, nem têm uma estrutura fiscal superior (plurinacional, nesse caso) para garantir certos padrões mínimos de vida. Se for cada um por si, “não há mais grãos a moer, nem mel a oferecer”.

Na década de 1980, Nicolae Ceaușescu resolveu que o país que conduzia com mão de ferro, a Romênia, pagaria toda a sua dívida o mais rápido possível. Para isso, a população romena sofreu como talvez nenhuma outra na Europa durante as recentes décadas. Invernos sem calefação, noites sem luz, e comida parca e ruim acompanharam a vida dos romenos durante esse grande plano de austeridade do autointitulado “Gênio dos Cárpatos”. Como em outras experiências semelhantes da história, Ceaușescu acabou executado junto com sua esposa após uma revolução em 1989. Meses antes a Romênia já não devia nem mais um centavo aos credores. Mas a dívida social acumulada só começou a ser paga com a morte da ditadura.

Não é promissor ser imposto a países da periferia europeia um ajuste econômico via desemprego e forçada depressão do custo da mão-de-obra. Ou a Europa arruma uma nova grande visão para si, ou vai se despedaçar em frangalhos que desonrarão todo o esforço feito nas últimas décadas para trazer ao continente uma grandeza pacífica e fundada nos bons valores da ideia da integração.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.


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