Petistas de opinião: rejeição nas urnas

29/10/2006

O Globo

Enquanto a maior parte dos petistas diretamente envolvidos em irregularidades se elegeu para a Câmara dos Deputados, outro grupo, o dos chamados deputados de opinião, que atravessaram incólumes a profusão de escândalos, não conseguiu renovar o mandato.

A direção do PT não tem explicação para o fenômeno, mas os derrotados citam dois motivos: o loteamento da máquina partidária entre as tendências internas, que deixou desamparados os candidatos independentes, e a repercussão negativa dos escândalos entre o eleitorado com maior acesso à informação e que vota em parlamentares de opinião.

– O PT inteiro paga o preço do delírio da elite do PT. As pedras atiradas contra o PT me acertaram – afirma o deputado Paulo Delgado (PT-MG), que não se reelegeu.

Do primeiro grupo fazem parte nomes como José Genoino (SP), Antonio Palocci (SP), José Mentor (SP), João Paulo Cunha (SP) e Paulo Rocha (PA). Do segundo, Delgado, Antonio Carlos Biscaia (RJ), Sigmaringa Seixas (DF) e Luiz Eduardo Greenhalgh (SP). Outros parlamentares de opinião como José Eduardo Martins Cardozo e o senador Eduardo Suplicy tiveram menos votos do que em eleições anteriores.

“Estamos pagando o preço pelos erros dos outros”

Cardozo caiu de 300 mil votos em 2002 para 124 mil.

– De certa forma, estamos pagando o preço pelos erros dos outros disse ele.

Um mapeamento dos votos de Cardozo explica a tese. Em 2002 ele teve 220 mil votos “ de opinião” na capital paulista (73%) e 80 mil no interior (27%), onde predomina a máquina partidária.

Em 2006, sua votação na capital caiu para 60 mil votos e no interior se manteve estável.

Greenhalgh, que teve 147 mil votos em 2002 e chegou a disputar a presidência da Câmara no começo do ano, teve apenas 67 mil em 2006:

– Perdi votos na classe média, entre profissionais liberais e a juventude. Isso é reflexo das sucessivas crises em que pessoas do PT se envolveram. Cada vez menos os candidatos independentes têm condição de se eleger dentro do PT.

Paulo Delgado, que por duas décadas representou o lado intelectual do PT na Câmara e teve cargos importantes na direção do partido, atribui a derrota à lendária autofagia entre as correntes internas:

– Nunca tive tendência. Nesta eleição as tendências se organizaram para eleger seus próprios quadros e pressionaram o partido. É como colocar dois escorpiões numa garrafa. A capacidade de um infligir danos ao outro é muito grande.

Com a restrição da propaganda eleitoral, os candidatos dependeram mais do que nunca das máquinas partidárias. Isso explica, em parte, o fato de deputados de opinião de outros partidos e posições ideológicas terem fracassado como Delfim Netto (PMDB-SP), João Herrmann (PSB-SP) e Luiz Antonio Fleury Filho (PTB-SP).

Neste ano, sem faixas e outdoors, as candidaturas proporcionais dependeram do apoio de líderes comunitários ou corporativos, vereadores, prefeitos, deputados e líderes políticos regionais capazes de transferir votos. No PT, a disputa pelos apoios passou pela intermediação das tendências internas.

– Essa intermediação, essa instrumentalização do desejo do eleitor é a grande novidade da eleição. Foi uma devassidão. Hoje existem gabinetes parlamentares que são mais fortes do que a estrutura partidária e deputados maiores que diretórios estaduais – diz Delgado.

O deputado aponta uma terceira pista para o fracasso:

– O PT pragmático suplantou o PT doutrinário. O partido deixou de ter um discurso geral. Abandonou a intelectualidade, a imprensa, a ética. Enfim, o PT perdeu o charme. Se estivessem vivas, pessoas como Henfil e Carlito Maia, que deram charme ao PT, teriam críticas a este partido mau humorado, que não aceita críticas – diz Delgado.

Ele considera ter sido vítima de suas próprias posições tanto durante os escândalos quanto no processo eleitoral:

– Sempre fui insubmisso. Não subi no palanque do Newton (Cardoso), não subi no palanque do Jader (Barbalho), nem no do Quércia.

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