O mundo é um moinho

04/01/2013

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 30 de dezembro de 2012.

Dos astros não retiro entendimento

Embora eu tenha cá de astronomia,

Mas não para prever a sorte, o intento

Das estações, ou fome, epidemia;

Nem sei dizer o que será do instante,

Prever a alguém quer chuva, ou vento, ou raio;

Se tudo há de sorrir ao governante

Segundo as predições que aos céus extraio.

De teus olhos provêm meus atributos

E, astros constantes, leio ali tal arte:

“Que a verdade e a beleza darão frutos

 Se a ti deixas de tanto reservar-te”:

Ou um vaticínio sobre ti revelo:

“Teu fim põe termo ao verdadeiro e ao belo.”

 

Depois de amanhã é Ano Novo. Acima, o soneto 14 de Shakespeare da bela tradução brasileira do poeta Ivo Barroso, que pode servir para alguma inspiração nessa roda da vida que é a passagem dos anos. Nosso planeta não chegará ao futuro sem que se prepare. E um dos grandes desafios é abandonar energias poluidoras. Não só o petróleo, força motriz de ditaduras e países belicosos, que deixará de ser o combustível da nova revolução tecnológica, mas também o ouro e o carvão, que tanta voracidade trouxeram aos homens, já não definem mais nações.

É preciso que os países se comportem como civilizações, substituindo tragédias evitáveis e comportamentos inamistosos e exaltados por ações práticas e tranquilizadoras. Quem vê o futuro como prolongamento do passado pouca coisa verá; quem se mantiver dogmático e fechado para inovações, pouco contribuirá para a formulação dos princípios de esperança que o mundo anda necessitando. As nações mais ricas precisam mudar sua compreensão do que seja responsabilidade local, regional e mundial para merecerem fazer parte de alguma hierarquia de valor oriunda das posições que ocupam.

Algumas nações podem dominar o mundo em termos de influência e riqueza. Mas as que mais se destacam precisam enfrentar com coragem e discernimento seus compromissos internos e internacionais para que a riqueza de uns não esteja apoiada na pobreza dos outros. Ainda, para que a distribuição da qualidade de vida seja alçada à marca maior de progresso.

Os EUA e sua superexposição estratégica não podem mais manter a ilusão dessa grandiosidade frágil nem descuidar das tragédias que dividem sua sociedade. A China, com sua ascensão vertiginosa, tem que cuidar de construir uma melhor inserção na economia global, aumentando o grau de confiança do mundo em seu sucesso e aceitando a democracia como valor universal. A Índia precisa atentar-se para o fato de que poderá rapidamente ser a terceira economia do mundo sem que os indianos saibam disso. E o Japão necessita ser alertado quanto ao envelhecimento de sua população produtiva e à necessidade de ter cabeça fria ao discutir sua liderança regional diante de tantos competidores no mundo da Ásia-Pacífico.

A Alemanha, que sabe o quanto deve à Europa, poderia se inspirar mais em ideais transcendentes e finalidades elevadas de parceria e co-responsabilidade para dar menos ênfase à competição generalizada como se esta fosse a única maneira de honrar o grande projeto de crescimento regional. O Brasil, com sua trajetória cultural e histórica tão própria, muito bem faria se mudasse a matriz de seu modelo de desenvolvimento, disciplinando o apetite das fortunas que ascenderam ao poder econômico pelas mãos do poder político. A Inglaterra, o que mais aposta na riqueza virtual e no mundo dos negócios, abandonou o mundo rural e não terá mais uma vaca produzindo leite nos próximos anos e, assim, haverá de se valer da ficção científica para ensinar a suas crianças o que é agricultura. Mas, principalmente, o mais liberal dos países liberais tem que se dar conta de que será o mais dependente da fortuna dos outros.

A França é a nação que mais perderá posições no ranking mundial nos próximos anos e, por isso, a que vive mais profundamente os problemas do sentido da política. Caso continue indecifrável, seu modelo econômico poderá perder prosperidade e abrir caminho para desastres sociais.  A Rússia, de tanto desrespeitar sua história de grandeza, está roubando do seu povo a noção de destino. Máfias diversas, manipulação politica, violência social poderão levar o país a ilusões de força próprias de quem vê o mundo como um soldado. O Canadá continuará rico e isolado, mas seria bom se se dispusesse a dar mais palpite na ordem global. O México, caso consiga se ver livre do estado de mal-estar social que o domina e deixar seu povo ter alguma opinião pessoal, será uma grande novidade no clube dos influentes.

Um início de ano apreensivo para a economia mundial sempre leva à exaltação e à tendência de imaginar que o poder e o arbítrio são mais importantes do que a inteligência e o discernimento. Não são, não devem ser.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

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