O atirador de elite do PT

20/08/1995

Há dez anos, Paulo Delgado, o sociólogo, dava aulas na Universidade Federal de Juiz de Fora e, desde então, a crítica, a inquietude e a ironia já faziam parte de seu discurso. Influenciar e despertar o espírito crítico das pessoas já delineava, claramente, o futuro do Paulo Delgado político.

Do irreverente militante de esquerda ao parlamentar escaldado, Paulo Delgado carrega, visceralmente, sua vocação libertária, sua afinidade com conceitos em constantes transformações, a dialética do esclarecimento e da evolução. E esta postura, contrária ao corporativismo parlamentar, já presenteou o deputado com dezenas de inimigos e alguns amigos.

Ao crítico cabe, naturalmente, a simpatia e adesão dos agraciados e, ao revés, o boicote e o desdém dos “mal ditos”. No Parlamento fala-se, necessariamente, muito. Fala-se bem, fala-se mal, fala-se.

Nesse parlatório, a última palavra é de quem sabe o que fala, para bem ou para mal. E cabe ao crítico o ônus de seu discernimento e sensatez.

Classe A: Como foi a passagem de professor universitário para político e qual foi o caminho para exercer seu mandato?

Paulo Delgado: Sou um professor por profissão e político por indignação. Tenho muita honra de ser deputado federal, mas não tenho muita satisfação de ter o cargo de deputado. Exerço meu mandato motivado por minhas convicções pessoais e monitorado pelo programa do meu partido, cuja função é criar regras para o brilhantismo das contribuições individuais.

Somos o quinto colégio eleitoral do mundo, mas, no momento, o divisor de águas no Brasil não é partidário. Nem o adesismo da CGT nem o conflitismo da CUT. Estamos em uma sociedade onde o elemento cooperativas são muito mais ricos que o processo de adesão ou de conflito.

Exerço o mandato do jeito que eu sinto que são as minhas possibilidades.

Classe A: Deputado, com um mandato parlamentar de dez anos, o senhor mantém, com clareza, uma certa autonomia e uma visão crítica sobre as regras partidárias e os mandatos parlamentares e isso lhe custou algumas desavenças políticas dentro do próprio PT. Qual é sua relação com o partido, hoje?

Paulo Delgado: A minha relação é de absoluta integração com o programa do partido, pois sou um dos autores dele. O meu conflito é com a tática a maneira com que o PT opera o programa no dia-a-dia. Acho que poderíamos ser um partido mais generoso, mais contributivo e menos contestador. Acabou a era de ser do contra, mesmo porque tudo o que ele foi contra acabou.

“A dependência e a Autonomia entre o político e o partido têm que ser relativas. Por isso, eu não aceito dedo na cara. O partido é meu filho e não meu pai. Eu critico, mas não renego. Ele não pode ser maior que outras realidades que concorrem com ele e o derrotam.”

“O FHC erra quando pensa demais no seu próprio governo. Um presidente precisa ter mais qualificação e estar atento para a sua sucessão, para os efeitos e conseqüências futuros do seu governo.”

“Aqui se quebra um monopólio como se troca o nome de uma rua, numa Câmara de Vereadores. Isso é imperdoável.”

“Hoje sou um franco atirador : como os petistas dizem, mas eu quero ser um atirador de elite.”

Classe A: Durante esses 15 anos de luta partidária, o deputado “serviu” ao partido. Enfim, o partido te “serviu”?

Paulo Delgado: Eu dediquei toda a minha luta política à fundação e ao crescimento do PT. Com certeza o partido me deu muito mais do que tirou. Admito o direito do partido sobre a existência do mandato, não posso ser traidor daqueles que produziram a minha representação política. Hoje sou político, mas não partidário; a idéia de um partido em constante transformação e do mundo em movimento eu nunca perdi. A dependência e a autonomia entre o político e o partido têm que ser relativas. Por isso eu não aceito dedo na cara. O partido é meu filho e não meu pai. Eu critico, mas não renego. Ele não pode ser maior do que outras realidades que concorrem com ele e o derrotam.

Classe A: A que custo vem sendo mantida esta postura?

Paulo Delgado: Se eu estivesse atuando de forma mais institucional dentro do meu partido, no sentido de representar mais as posições do PT, como eu já fiz milhares de vezes antes, eu seria muito mais influente. Hoje sou um franco atirador, como os petistas dizem, mas eu quero ser um atirador de elite. Estou em uma fase democrata, de menor influência interna no partido.

Procuro falar para os petistas, mas os que estão fora do PT. Isso me envaidece e me frustra um pouco. Se eu escolhesse ser líder, se meu partido tivesse acertado nas alianças e não fosse tão rigoroso, tão estreito, tenho certeza que hoje teria uma representação muito maior no Congresso e minha capacidade e influência seria muito maior que a que tenho hoje.

Classe A: As dissidências, os “rachas” e os conflitos têm marcado a política interna do partido. Qual é a origem desse desajuste?

Paulo Delgado: O PT é um partido sério, orgânico, onde as divergências não têm origem na má-fé ou na concorrência desqualificada entre companheiros. A forma de mobilização do PT é que está errada. O partido se organiza por tendências internas que, em muitos casos, substitui a luta da sociedade pela luta interior do partido. Sofre, assim, um desgaste na base de sustentação teórica do partido, a idéia de renovação do Estado brasileiro, para que ele pudesse servir à maioria da população. Essas idéias se esgotaram no interior do próprio partido, antes de ser resolvidas na sociedade brasileira.

A massa da sociedade, hoje, está fora da proteção dos partidos de esquerda. Esta é a angustia central do PT.

O brasileiro está seduzido pelo discurso liberal que, no final das contas, não vai protegê-lo.

Hoje defendemos o estado que a gente criticava e permitimos que aqueles que sempre se apropriaram do estado façam o discurso da mudança, como se quisessem realmente mudar. Os liberais querem um estado mínimo sem que se diminua sua presença e controle sobre este mesmo estado.

Classe A: Qual é, então, o caminho a ser retomado? Em que sentido o partido teria que caminhar?

Paulo Delgado: Luto para que ele seja um partido normal, para que as pessoas normais, que têm casa, família, religião, possam ser petistas. Quero um partido comum, de pessoas comuns. Não somos o partido dos assalariados ou dos operários, somos dos trabalhadores e luto para que possamos ser muito mais do que isso, o partido dos que vivem do trabalho. Todo mundo que ganha a vida do trabalho poderia, então, ser do PT.

O Brasil tem que fugir dessa gangorra imposta pelo processo eleitoral, que é sempre decidido de maneira finalista, como se o País fosse se resolver a partir de uma eleição, como se a vitória de alguém significasse a redenção dos problemas nacionais. Os governos precisam pensar um pouco mais além da eleição. OFHC erra quando pensa demais no seu próprio governo. Um presidente precisa ter mais qualificação e estar atento para a sua sucessão, para os efeitos e conseqüências futuros do seu governo.

Classe A: Ainda permanece no Brasil a chamada “síndrome negativa do resultado eleitoral”, onde os partidos derrotados dificultam o trabalho de quem governa, em detrimento do bem-estar coletivo. Já não estamos em tempo de uma política mais madura, voltada para o País e não para interesses partidários?

Paulo Delgado: Um partido que perde a eleição se sente como um inquilino de um imóvel, que, por não se sentir proprietário, não permite benfeitorias. A esquerda poderia estar participando desta reforma constitucional para produzir reformas com cautela, sem permitir o gozo do mercado.

Não posso ficar junto aos derrotados, torcendo para que o governo dos vitoriosos não dê certo. Tenho que lutar para que o partido que venceu chegue ao máximo de sua capacidade para que os eleitores derrotados e vitoriosos possam ver que havia uma outra alternativa. Não tem sentido ser só oposição, primeiro porque sou brasileiro. Quero ver benfeitorias, quero que o governo tenha sucesso, os brasileiros precisam disso.

Classe A: O governo atual promove, eficientemente, a reforma constitucional. Trata-se de uma benfeitoria ou de um desmonte?

Paulo Delgado: O governo abandonou suas propostas de flexibilização e foi para a quebra pura e simples dos monopólios. Eu nunca vi, na história da política mundial, governos legítimos que entregassem o patrimônio público dessa maneira e que, ao mesmo tempo, tenham perdido o poder, como está acontecendo agora. O governo não tem lutado nem pela proposta que inicialmente mandou para o Congresso.

Desta forma, ele perde sua autonomia, quando não flexibiliza e transfere para o mercado o gerenciamento do desenvolvimento sob novo padrão e abandona as funções de governo. Aplaca a ira do capital que tem sobre o Brasil o mesmo interesse eu tem sobre o Caribe, por exemplo. Perde o poder porque realiza completamente a sanha do mercado. Ele só poderá voltar para posições mais social-democratas quando for fazer a reforma fiscal e tributária.

Classe A: O que a esquerda tem feito dentro do Congresso Nacional para que este processo se desenvolva, então, de forma mais cautelosa?

Paulo Delgado: Procurei introduzir a discussão de que o governo não pode realizar reformas de ordem econômica tão importantes, de maneira definitiva, enquanto o resultado dessa reformas só será sabido nas gerações futuras. É impossível saber se tudo isso vai dar certo, ninguém sabe. Sei que essa reforma não deveria ter sido feita com esse grau de finalidade.

Não posso imaginar que o FHC, um homem em que o País investiu tanto, um dos presidentes mais bem preparados do mundo, imagine que o capital seja diferente de uma prova de canoagem, onde em determinado momento não é o tripulante que conduz a canoa, mas as correntezas do rio. Não se pode ter nem o gozo do mercado nem a esterilidade de um monopólio. Ele perde a grandeza de estado porque se entusiasmou com a maioria de mercado, que se produz nos momentos favoráveis da compra e venda. Não é a maioria que produz as grandes lideranças e decisões nacionais. Defendi na bancada a proteção do patrimônio nacional e a flexibilização necessária da lei. Do jeito que está sendo feito, estamos comprometendo o patrimônio, sim, e isso é um risco muito grande.

Classe A: Onde está a força e a união dos partidos de esquerda que permitiram esse laissez-faire?

Paulo Delgado: Pela facilidade parlamentar, a maioria dos deputados aqui vota sem pensar. Eles vêm votar porque, como não decidem nada, normalmente, acham que pelo simples fato de votar estão decidindo alguma coisa. Aqui se quebra um monopólio como se troca o nome de uma rua, numa Câmara de Vereadores. Isso é imperdoável. Todo o Congresso tem culpa. Se o presidente manda para cá um projeto que propõe a volta da escravidão, por exemplo, e o Congresso aprova por 360 votos contra 129, a culpa é de quem?

Também dos 129 que não conseguiram convencer os outros de que a escravidão não é um bom negócio…

Classe A: Deputado, como resgataríamos a cautela necessária?

Paulo Delgado: Precisamos criar políticas de controle de Estado sobre operações de natureza privada e até das estatais. Se a atuação do Estado será reduzida, o controle e fiscalização têm que aumentar, proporcionalmente.

Liberar sem criar nenhum controle de política fiscal é fazer uma reforma contra a maioria do povo brasileiro. O Brasil precisa de uma reforma política que produza um estado mais permanente, com regras mais permanentes, onde cada setor tenha seu papel definido, para que possa haver continuidade administrativa.

O sistema político brasileiro é produto de conveniência. Precisamos de uma burocracia que funcione mesmo sem a presença do governo e isso só é possível no sistema parlamentarista.

Saúde, moradia, educação, transporte e segurança teriam que ultrapassar a autonomia eleitoral e se tornar obrigação primeira do governo. Com o presidencialismo, a política de governo é muito mais acerto de contas com quem o apoiou durante a campanha eleitoral que com o compromisso social.

Patrícia Motta

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