Nostalgia Americana

02/10/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 30 de setembro de 2012.

A eleição norte-americana anda fora de foco em relação aos problemas reais pelos quais passa o país. Os dois candidatos não divergem nem sobre os atributos, nem sobre as discrepâncias da liderança do seu país no mundo. Com isso não ajudam a esclarecer qual a fórmula para balancear sua liderança mundial, nestes tempos em que cresce o poder da Ásia. Na falta de significado para suas divergências o que se vê é que a intriga tomou conta do noticiário. Está difícil encontrar objetos concretos de preocupação geral; o que predominam são artefatos para debates particulares.

Falar para nada dizer costuma ser um princípio da política. Não em relação a Winston Churchill, que fascinava os aliados com seus discursos e atitudes como líder na Segunda Guerra Mundial. Pois o sumiço de seu busto do Salão Oval da Casa Branca deixou os republicanos preocupados com o desprezo dos democratas pelo “relacionamento especial” que a América deve ter com a “herança anglo-saxônica”. De que nostalgia anda sofrendo os republicanos para darem tanta importância à troca do busto de Churchill pelo de Lincoln no gabinete presidencial?

Também os debates sobre o tamanho e a qualidade da intervenção do Estado na economia e na sociedade, sobre mais ou menos imposto, que tanto agradam aos mitos da América polarizada entre democratas e republicanos, parecem coisa do século passado. Num mundo acelerado pelos ciclos econômicos multinacionais, impulsionados pela incontrolável revolução tecnológica, a ousadia da livre circulação de capitais e as imprevisíveis mudanças da natureza e da remuneração do trabalho, a conversa predominante dos dois candidatos não dá segurança sobre o futuro do país. Muito menos sobre como vai ficar o emprego diante da expansão mundial das empresas – que preferem contratar trabalhadores mais baratos pelo mundo – e da riqueza cada vez mais concentrada pelas grandes corporações, que acabam pagando salários menores dentro de casa.

Não escapa aos olhos de ninguém que a fuga das campanhas eleitorais para as mãos dos marqueteiros – esses embromadores inteligentes até perderem a próxima eleição – foi para driblar a complexidade da sociedade atual. Como ainda não foram criadas novas instituições para lidar com o mundo virtual e globalizado, fica mais fácil carregar na propaganda, no confronto e nos mitos deslumbrados dos slogans e palavras de ordem.

Muito barulho por nada, na maioria das vezes. A primeira invenção eleitoral americana, no século passado, foi levar a política para o acompanhamento diário de pesquisas e estatísticas e, assim, fazer desaparecer do cenário eleitoral a vontade do eleitor. Decisões, discursos, posicionamentos são moldados pelo que se vê e antevê como tendência na opinião pública. Uma verdadeira opressão de números sobre o livre pensar político. A segunda grande característica, igualmente patente desde o surgimento dos meios de comunicação de massa, é a superexposição midiática. Numa era em que é impossível controlar a informação, a crítica sem fim e sem responsabilidade ocupa a maior parte do tempo. Dessa forma, pesquisa e acusação escandalosa são as duas principais armas do jogo político atual. Estatística e dramaturgia, ciência e arte, vão, mais uma vez, definir o futuro dos EUA. Pode-se dizer que sempre foi assim, mas ninguém podia imaginar que iria continuar assim com tanto problema mais sério para resolver.

A partir da campanha de Obama em 2008, os novos magos da tecnologia da informação levaram isso tudo a um novo patamar. Dessa vez, com um orçamento muito aquém do levantado pelo oponente, o time de Obama acentua mais o uso inteligente da informação a respeito dos eleitores. Os dados são destrinchados ao extremo e materiais específicos são produzidos para abordar grupos muito definidos de eleitores. O bureau central da campanha democrata em Chicago, berço político do presidente, mais parece um centro de criação de uma empresa do Vale do Silício do que um tradicional local de entra e sai de apoiadores.

Estima-se que o custo total da corrida presidencial gire em torno dos 2,5 bilhões de dólares. Numa eleição marcada por forte polarização, potencialmente capaz de tender para qualquer um dos lados, a caça ao eleitor moderado e de centro é a meta opressiva dessa campanha bilionária. Ou pela sagacidade de uma abordagem aparentemente inovadora e personalizada, ou pela indução do adversário ao erro.

No dia 3 de outubro, no primeiro dos três debates previstos, como atualmente só no erro se vê a sinceridade do político, quem sabe um pouco do espírito americano apareça na gafe de algum dos dois candidatos.

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PAULO DELGADO é sociólogo.


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