Nada Sincronizado

06/08/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 5 de agosto de 2012.

Reduzida aos interesses da lógica e da escala comercial, as Olimpíadas morreram como esporte. Seus rituais e símbolos de dedicação, amadorismo e heroísmo recolheram-se diante dos ferozes controladores de atletas, da obstinada pressão de patrocinadores e dos segredos milionários enterrados nos Comitês Olímpicos pelo mundo. Muitas histórias os Jogos Olímpicos ajudaram a escrever.

O Ramadã, mês de jejum praticado pela fé islâmica, não se cruzava com o calendário das Olimpíadas desde os jogos de Moscou em 1980. Irônicas com a história dos usos e abusos das grandes nações sobre alguns países, as Olimpíadas daquele ano foram esvaziadas pela ação norte-americana, que convenceu seus aliados a também não irem à capital soviética em protesto à invasão do Afeganistão pelo exército vermelho. 30 anos depois o Afeganistão continua invadido, desta vez pelos EUA.  Agora, em Londres os muçulmanos são ao todo 3.500 atletas que presumivelmente passam todo o período entre o nascer e o pôr do sol em completo jejum. Para amenizar a situação dos competidores, os restaurantes da Vila Olímpica ficam abertos durante toda a noite. O que não diminui o problema da falta de descanso resultante da necessidade de se acordar muito cedo e ir dormir muito tarde a fim de se conseguir comer enquanto, nos longuíssimos dias do verão europeu, o sol não está brilhando.

Palco para a confirmação da habilidade burocrática dos que fabricam campeões para fins políticos as Olimpíadas produzem bombas humanas desde criança. Desaparecida a bandeira da União Soviética e entrando a Rússia em desorientação, o vermelho chinês sobe ao pódio e reafirma sua condição de potência em mais uma área. Combinando disciplina soviética com incentivos capitalistas, o país vai obtendo os louros que alimentam sua psique cada vez mais patriótica. Cada medalha de ouro dá direito a um gordo cheque para o vencedor. Política de Estado que mapeia e seleciona  meninos e meninas que serão transformados em máquinas de propaganda.

Mas nem só do dinheiro do patriotismo vivem os jogos. O mercado olímpico é extremamente atrativo e a disputa para estampar sua marca junto dos cinco anéis entrelaçados é voraz. Sem dúvida, patrocinadores são essenciais para possibilitar a execução e distribuição em alta qualidade dos eventos que todos terminam vendo.  Mas existem excessos que acabam por, no mínimo, levantar a discussão sobre a legitimidade das práticas impostas pelo poder do patrocínio. Que tipo de conteúdo ou contrapartida real existe nas imagens e ideais com as quais se busca associar?  Nenhuma reação é possível diante do fato de que todos somos “vendidos” fora da Vila Olímpica. Talvez seja hora de pensar numa nova forma de remuneração de telespectadores ou cidadãos de uma cidade invadida por uma Olimpíada. Pois se o lucro vem da possibilidade da propaganda ser vista por milhões de pessoas, porque não encontrar uma forma de pagar a quem se dispõe a olhar um cartaz ou ligar uma televisão?  As regras draconianas impostas em Londres tem dado o que falar. Uma imensidão de proibições seguidas à risca embrulhou a cidade para os patrocinadores. E assim encobriu marcas e pontos tradicionais para garantir que nada não relacionado aos jogos apareça “ferindo” o direito comprado a peso de ouro pelos patrocinadores. Foi-se a velha e universal Londres pelo ralo, traduzida numa única imagem oficial.

Como todo grande evento esportivo dos últimos tempos, as Olimpíadas de Londres são um paradoxo de relações com o público. Ao mesmo tempo em que sua transmissão chega aos mais profundos confins do mundo, os jogos pouco inclui o cidadão do local onde ela ocorre. Na verdade, seus preços assustadores e sua logística voltada para facilitar apenas a vida dos grandes patrocinadores geram repulsa. Quer ver uma boa olimpíada? Fique em casa ou será convidado, oficialmente, a sair de sua cidade.  Admirável mundo novo. As elites do planeta vão confraternizar no seu jardim, pedem para que você saia de casa, mas te deixam um ambiente de obras que parecem vir em gratidão. Menos mal seria se 9,3 bilhões de libras não saíssem direto do bolso do contribuinte, mas da bolsa dos patrocinadores.

Fidípides, o mensageiro do exército, correu 42 quilômetros para comunicar ao povo de Atenas a vitória na batalha contra os persas, mas também para preveni-lo sobre um possível ataque revanchista de seus inimigos. Na última década do século XIX, quando os Jogos Olímpicos modernos foram instituídos, a maratona, essa prova de superação com raízes de patriótica abnegação, foi escolhida como o grande símbolo do evento.  Desde então, cabe a ela encerrar as Olimpíadas.  Mas só depois que a guerra milionária entre as TVs de todo o mundo decidir a hora da largada.

Nada mais nas Olimpíadas anda sincronizado com sua história original.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.


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