Morte e Destino

29/05/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 27 de maio de 2012.

Do mesmo jeito que entrou, a força de coalisão comandada pelos EUA e formada por quase 50 países, começou a sair da Republica Islâmica do Afeganistão. Não foi o fim do Talibã – organização nacionalista que já governou o país e está envolvida em ações terroristas pelo mundo afora – nem possíveis motivações humanitárias que provocaram a decisão tomada esta semana, em Chicago pelos líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). É que a desaceleração da economia mundial produziu reviravoltas eleitorais na Europa e encareceu a manutenção da ocupação militar no populoso país entre a Ásia e o Oriente Médio.

Entregue à ocupação ou a tutela internacional, aquela região confinada entre o Paquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, Irã e China continua consumida por uma guerra civil que já dura dez anos. Aumentando a tragédia de sua longa história, onde aturaram cavalos e tanques de Alexandre Magno, Genghis Khan, Rainha Vitória, Leonid Brejnev, Ronald Reagan e George Bush. Agora, François Hollande, cumprindo promessa feita na campanha eleitoral, decidiu retirar as tropas francesas do país, o que deixa Obama isolado em meio a pressões, também eleitorais, pelo fim dos gastos de guerra. Ninguém sabe ao certo como será o futuro dessa que é uma das mais vulneráveis e inseguras regiões do mundo. Pois, além do despreparo militar para manter a segurança dos seus cidadãos, o Afeganistão não tem como conseguir US$4 bilhões por ano de recursos para manter o país funcionando precariamente.

Crenças, emoções e instintos, misturados a cálculos de geopolítica e movimentos de tropas para controle, dominação e repressão levaram, na década de 1980, o governo Reagan a armar o Talibã para resistir à ocupação soviética. Após o 11 de setembro, o governo Bush foi a Cabul caçar os mesmos Talibãs e nada disso encerrou a questão. E a percepção crescente da insustentabilidade e da ineficácia do envolvimento de tantos países dentro de outro começou a desestabilizar a aliança antiterrorista coordenada pela OTAN. Nenhum país está mais em condições de gerenciar a vitalidade e o desejo de mudança dos outros. Quem sabe sirva de lição refletir sobre o quão furada é a ideia de que prioridades de curto prazo, na busca da estabilidade regional, podem congelar o poder nacional de países tidos como fracos, ou que a estabilização só pode ser feita pela via militar e pela desconfiança.

O que começou como erro, administrado para manter o erro, não pode dar certo. Afinal, o que é o Afeganistão ? Um país cujo próprio nome trás um problema que dilacera. Originalmente, afegão refere-se ao povo pachtun, que representa menos da metade da população do país e cuja língua não é mais falada. Desde tempos imemoriais ali havia uma organização tribal singular que se viu forçada a entrar num amalgama de pouquíssima liga. Do subcontinente indiano, sob controle britânico, às margens móveis do império russo, toda aquela faixa de terra resultou em países terminados em “ão”, nações dilaceradas pela presença estrangeira, incapazes de traçar seu destino diante de situações às quais são culturalmente alheias. A Índia, depois de muito amargar se salvou, mas ao Afeganistão resta o desamparo econômico, político e emocional. Não há mais nenhum vislumbre de legitimidade em nenhuma força política dentro do país. Muito menos qualquer outra imposta por estrangeiros.

Winston Churchill começou sua carreira literária escrevendo sobre sua experiência na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. E não esconde a escolha pela abordagem imperialista das conveniências estrangeiras, passando por cima de nações, histórias e rivalidades internas. Stanley McChrystal, que comandou as tropas da OTAN durante essa ocupação que se faz moribunda, tinha o político inglês como exemplo.

A bagunça instaurada é tamanha que o futuro do país se mostra desolador. Mas é certo que a maioria dos afegãos está unida na insatisfação com os estrangeiros, seja de onde forem, venham do Irã, Paquistão, Rússia, Inglaterra ou dos EUA. Os afegãos sentem-se num Estado inventado, incapaz de forjar sua soberania e legitimidade perante sua população. Assim, reagem com bravura, desconforto e confusão, pulando de um lado ao outro na balança internacional das lealdades, sem nunca estancar seus desacertos diante das “potências em exercício” presentes no mundo, em todas as épocas.

Repensar a região fora da ótica imperialista é um desafio maior para as democracias ocidentais do que para a fé islâmica que predomina no país. Pois são suas matizes culturais que podem diluir o poder entre grupos e tribos e estabilizar o país, distante da agenda bélica do ocidente. Os riscos que podem existir são desmesuradamente menores do que esse destino de morte sem fim.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.


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