Lulismo se consolida, à distância do PT

30/10/2006

Estratégia de desvincular presidente de seu partido funcionou e, agora, governadores tentam reconstruir PT

O Globo

O PT completou 26 anos.

Nos últimos 17, teve em Lula seu principal condutor e único candidato, sem outro que pudesse substituí-lo. Agora, nas urnas, os eleitores fizeram exatamente isso – separaram Lula do PT.

Mas qual o impacto político e as conseqüências desse divórcio sobre as relações de poder entre Lula e o PT?

(…) A distância entre o candidato e o partido reflete uma crise que não deve ser amenizada, observa o deputado mineiro Paulo Delgado, fundador e mais antigo parlamentar petista.

– A crise é do grupo que usou o PT como instrumento para fazer negócios. Não é uma crise da militância, de quem construiu uma utopia.

Delgado, como outros líderes regionais do PT, acabou escanteado pelo próprio partido na recente eleição e ficou sem mandato. A autofagia petista levou a uma encarniçada disputa interna, enquanto Lula navegava na liderança das pesquisas eleitorais. Nos redutos onde havia um candidato com chances reais de reeleição, um grupo adversário do próprio PT cuidou de lançar três a quatro candidatos alternativos, com a missão de obter de 1.000 a 3.000 votos cada. Resultado: muitos dos candidatos preferenciais do eleitorado do PT acabaram inviabilizados na eleição pela concorrência interna.

Lula pediu reconstrução

Houve, na análise de Delgado, uma versão eleitoral de pragmatismo de pouco ou nenhum princípios, no qual deu-se preferência no Congresso a políticos afinados com o que ele chama de “PT de negócios” em detrimento dos outros, os doutrinários.

Há chance de recuperação, acha Marcelo Deda, governador eleito de Sergipe:

– Vamos reconstruir o partido e essa ação começa depois de amanhã. Vamos mudar o rumo, acabar com grupos, dissidências e divisões internas.

A iniciativa foi de Lula. Ele pediu aos governadores petistas recém-eleitos a antecipação da convocação do congresso nacional do PT, prevista para o segundo semestre.

-Vamos fazer entre abril e maio – diz Jaques Wagner, governador eleito da Bahia.

Déda complementa: – O PT vai ter um comando único, vai se relacionar de forma civilizada com o governo do presidente Lula e acabar de vez com esses grupelhos que são responsáveis pela situação a que chegamos.

Mas essa reconstrução, observa Paulo Delgado, só acontecerá com uma “ desprivatização ” do PT – ou seja, a remoção de líderes de grupos que dominaram a burocracia partidária. Sem isso, ele acha, o PT corre o risco de definhar, confinado aos grotões eleitorais, cada vez mais distanciado do eleitorado do Sul e do Sudeste, o eixo político do país.

No bojo da reeleição de Lula, o criador, cujo mandato termina em 2010, restou um problema para a criatura, o PT: como voltar ao futuro.

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