Limites da Classificação

10/04/2012

Estado de Minas e Correio Braziliense – domingo, 8 de abril de 2012.

É difícil saber com certeza a seriedade, licitude ou encanto de um mundo desconhecido. A Páscoa tem sua origem entre os hebreus, se transformou em uma das duas maiores festas cristãs, relembra libertação e ressurgimento. Passagem de uma estação à outra, transição permanente da vida, é celebração e fertilidade. Data otimista, repudia enganos e frustrações e nos convida a reconstruir e aceitar diferentes sistemas de pensamento.

A descontinuidade e o desengajamento em relação às responsabilidades individuais, sociais e ambientais mudam de país para país, mas é inegável que a maioria do mundo busca desbloquear as causas e fatores da infelicidade humana. E vivem melhor os povos que sabem moderar e equilibrar simpatia e antipatia pelas pessoas e coisas, sem ousar rotular ninguém definitivamente. Agindo assim é possível pensar que a personalidade quente do fogo se equilibra diante da simpatia refrescante da água. Como no “D. Quixote”, onde Cervantes embaralha similitudes e analogias para descrever sua busca pela representação dos sonhos e desejos da humanidade.

No prefácio de seu livro “As palavras e as coisas”, Michel Foucault avisa de onde tirou a inspiração para desenterrar a história das ciências humanas, as leis e limitações de suas regras, conceitos e valores. Viu como em todos os tempos são trágicas as consequências da fúria da competição e do combate de ideias e pessoas. Mas sua motivação inicial foi bem humorada. Apaixonou-se pelo encanto exótico de um sistema de pensamento livre e mágico que leu no “Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos”, citado em um conto de Jorge Luiz Borges. Ali, o genial argentino, descrevendo a limitação dos sistemas numéricos, analíticos e de classificação, esbarra nas ambiguidades, redundâncias e deficiências atribuídas a certa enciclopédia chinesa: “Em suas remotas páginas consta que os animais se dividem em a) pertencentes ao Imperador; b) embalsamados; c) amestrados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cães soltos; h) incluídos nesta classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com um finíssimo pincel de pelo de camelo; l) etecetera; m) que acabam de quebrar o vaso; n) que de longe parecem moscas.” E é o mesmo Borges que conclui: registrei tais arbitrariedades porque “notoriamente, não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjectural. A razão é muito simples: não sabemos o que é o universo”.

Não somente nas fábulas e histórias infantis são infinitas as formas de ordenar e descrever as coisas. Por isso quem se dispõe a construir códigos para buscar classificar e entender o mundo precisa ir devagar com a presunção, valendo-se do freio da humildade e da sabedoria.

As considerações econômicas andam tão absolutas em todos os países que subjugaram amplamente as relações afetivas e a discussão do que é realmente importante para a vida. O sobreviver precário e preocupante ocupou todos os lugares e pode fazer desaparecer os vestígios de responsabilidade comum, pela sorte uns dos outros. A imperturbável distancia da solidariedade ou da gentileza é consequência da falta de amor pelo próximo, da crescente indiferença pelo trabalho de servir a quem precisa e da impaciência em ver como fardo desagradável o valor das leis sociais para os mais desprotegidos.

São tantas e diversas as bandeiras e os hinos dos países (uns lembram a guerra, outros celebram a paz) como são únicas as impressões digitais. Mas os critérios para dividir e separar pessoas não são as diferenças visíveis, as características pronunciáveis. Virtude e desonestidade, refinamento e barbárie não bastam para garantir a fixação da identidade pessoal ou nacional. O que de fato distingue duas pessoas é que cada uma é o que é e a outra igualmente o é à sua própria maneira.

Estabelecer relações semelhantes é mais importante para o bem viver do que fixar-se em coisas semelhantes. Sendo que, por mais que às vezes busquemos esquecer isso, a amplitude de similaridades é completamente dominante sobre as pontuais diferenças. Somos todos tão absurdamente parecidos que passamos a sobrevalorizar as diferenças que nos distinguem e não nos damos conta do custo que é parecer “únicos”: um processo de escolha feito por pessoas e países cuja motivação tanto pode ser para bem quanto para mal.

De pouco adianta ganhar em distinção reforçando particularidades se o resultado é perder a vocação humana para fugir da solidão e viver em coletividade. Pessoas, coisas e países bizarros são apenas variações de nós mesmos, não devemos nos enganar.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.

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