Governo quer desfecho rápido para o caso Severino

09/09/2005

Redação Terra

Embora oficialmente evite se pronunciar sobre as denúncias contra o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), acusado de receber “mensalinho” para beneficiar o concessionário de um restaurante da Casa, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, já considera a permanência de Severino no cargo bastante abalada, ainda mais após a entrevista coletiva prestada nesta quinta-feira pelo empresário Sebastião Buani, que confirmou o suposto achaque do parlamentar e prometeu apresentar prova – um cheque teria sido usado para pagar propina.

A intenção do Planalto, já acuado por denúncias de caixa dois envolvendo o PT, é negociar um rápido desfecho para a crise, na hipótese de afastamento do deputado federal. De preferência, conduzindo um petista para a presidência da Câmara e evitando a abertura de um longo processo de cassação. A melhor saída seria a renúncia de Cavalcanti, acreditam membros do governo, ou rápida apuração que confirme ou desminta os ilícitos atribuídos a Severino. Membros da oposição estariam, inclusive, articulando para antecipar a representação contra o presidente da Câmara no Conselho de Ética, inicialmente marcada para a próxima terça-feira.

Segundo afirmou ao jornal O Estado de S.Paulo , o ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Jaques Wagner, defende que a crise motivada por Cavalcanti não pode se estender por mais tempo e pede que os esclarecimentos sejam “brevíssimos”. O grande temor dos governistas é que a presidência caia nas mãos de um opositor, abrindo o risco, inclusive, de este aceitar novo pedido de impeachment contra Lula, por conta das irregularidades envolvendo o PT. Severino, embora seja considerado um aliado “indigesto”, engavetou todas as solicitações nesse sentido até agora.

As negociações estão em curso desde o início da semana. A intenção governista, baseada na maioria do PT na Câmara, é buscar consenso em torno de um deputado filiado à legenda que tenha trânsito livre entre partidos de oposição, especialmente PSDB e PFL, líderes da base não-alinhada ao Planalto e do movimento que promete pedir a perda do mandato de Cavalcanti.

Porém a iniciativa já enfrenta resistência na Câmara, especialmente de parte do PPS. Nesta quinta-feira, o presidente do partido, deputado Roberto Freire (PE), adiantou que não aceitará um petista como eventual sucessor de Severino, alegando que o PT é a principal sigla afetada pelo escândalo do “mensalão”. A crítica também partiu do líder do PSDB na Casa, Alberto Goldman (SP), que classificou de “excludente” a postura do governo federal.

“Não podemos repetir a bobagem que já fizemos: a de eleger o Severino. Não pode haver veto ao PT nem pode virar obrigação o futuro presidente ser do PT”, disse o tucano à reportagem do jornal O Globo .

O governo sabe que terá de buscar a alternativa mais próxima do consenso e está consciente dos erros do início do ano, quando dois candidatos petistas perderam as eleições para a presidência da Câmara justamente para Severino, devido a uma manobra da oposição. Nesse sentido, o governo e Lula já começam a depurar uma lista de possíveis candidatos, incluindo não-petistas. Os deputados Sigmaringa Seixas (PT-DF), ex-tucano, Eduardo Campos (PSB-PE), ex-ministro de Ciência e Tecnologia, Paulo Delgado (PT-MG) e Aldo Rebelo (PC do B-SP), ex-ministro da Coordenação Política, são os nomes preferidos.

Na série de cenários possíveis, os candidatos petistas derrotados por Severino – Luiz Eduardo Greenhalgh (SP) e o dissidente Virgílio Guimarães (MG) – correriam por fora. Nomes cotados no início da semana, como os dos deputados federais Arlindo Chinaglia (PT-SP), ex-líder do governo, e José Eduardo Martins Cardozo (PT-SP), perderam a força por serem provenientes de São Paulo, Estado que centralizou as denúncias de caixa dois envolvendo o partido e que é conhecido pelas fortes disputas internas – fator a ser evitado no cenário atual. De acordo com a Folha de S.Paulo , Chinaglia já estaria articulando contra a indicação de Cardozo.

Nem aliados defendem Severino

Na hipótese de Severino deixar o cargo de presidente e até o mandato parlamentar, as eleições seriam convocadas após cinco sessões plenárias na Câmara. A possibilidade de afastamento cresce a cada dia, com o surgimento de novas denúncias e documentos que comprometeriam o deputado. Nesta quinta-feira, o empresário Buani, concessionário do Restaurante Fiorella, acusou Cavalcanti pela primeira vez em público e garantiu ter pago algo entre “R$ 110 mil ou R$ 120 mil” de propina entre 2002, quando o parlamentar era primeiro-secretário, e 2003.

Sebastião Buani ainda prometeu apresentar prova dos supostos pagamentos – um cheque do Bradesco supostamente repassado a Severino Cavalcanti.

O resultado da entrevista foi catastrófico, pois um aliado de primeira hora de Severino, o segundo vice-presidente e corregedor da Câmara, deputado Ciro Nogueira (PP-PI), disse que as revelações foram “chocantes”. Por esse motivo, “as graves denúncias precisam ser esclarecidas o mais rápido possível”, defendeu. Para ele, qualquer deputado acusado de corrupção fica em “situação difícil e constrangedora”.

Ao ser questionado se Severino teria condições de continuar presidindo a Câmara, Ciro Nogueira respondeu: “só se ele for inocente”.

As críticas a Cavalcanti conseguiram algo difícil: unificar opiniões de parlamentares da base aliada e da oposição. “A situação de Severino é dificílima. As denúncias já eram graves e se tornaram gravíssimas”, afirmou o novo líder do PT na Câmara, deputado Henrique Fontana (RS), que pede uma solução rápida e negociada para o caso. Goldman também foi na mesma linha: “É decisivo, é definitivo. Não temos mais dúvida nenhuma quanto às responsabilidades dele”, garantiu.

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