DUAS TENSÕES SULAMERICANAS

01/05/2017

Correio Braziliense e Estado de Minas –  domingo, 30 de Abril de 2017.

O maior xingamento na Ucrânia vem de um trauma na fronteira.  É dizer: “Deus te dê um mau vizinho”. De fato, quem aguenta um tipo assim !

Enquanto o mundo se distrai com as eleições francesas, cujo centro do conflito é a velha política de poder, a burocracia parisiense teve que encontrar tempo para resolver um problema inédito na nossa vizinhança. A estranha condição da Guiana Francesa. Inconsciente das peripécias do mundo, o Brasil se esquece que faz fronteira com a União Europeia, e é vizinho da França.

França admirada por inúmeras razões, mas cujas lideranças políticas continuam vivendo no século passado.  Insistem em não deixar surgir nenhum personagem que considere a vida privada, e seus desafios, mais revolucionária do que a coisa pública, e seu comodismo.

Logo ali, acima do Amapá, um de nossos Estados mais remotos, as pessoas compram e vendem com Euros, votam na eleição do presidente francês, enviam senadores para Paris e tem acesso à CAF, programa francês de generosa renda mínima. Olhando as estatísticas, os habitantes da Guiana Francesa se destacam positivamente no contexto da América do Sul. Entretanto, há algo bem complicado ocorrendo por ali.

De 25 de março a 22 de abril o país esteve sob uma greve geral que, dia após dia, foi escalando o pico. Fechou o Centre Spatial Guyananais – Base Espacial de Kouru – e impediu o lançamento de foguetes Ariane, alta fonte de receita e prestígio do Bercy, o Ministério das Finanças. Em poucas palavras, ganhou vulto incontrolável o sentimento de filho abandonado, que vive bem, mas não em igualdade de condições. Os guianenses escolheram o momento eleitoral para dar um ultimato à metrópole. Querem ser tratados como europeus, o continente que mais deu consistência à democracia ao se interessar pela sorte das pessoas comuns.

Paris abriu o bolso oferecendo ações que atingem três bilhões de euros. Mas o anacronismo da condição desse território –  fora das fronteiras nacionais e maior do que Portugal – somente perdurará se a França for muito criativa para encontrar pessoas sérias capazes de perder tempo ouvindo as razões de tal disparate colonial.

O texto do chamado “Acordo da Guiana” demonstra efetividade no sentido de tentar impor um sentimento de nação a um povo que possui o sentimento de pertencer a um Estado. Como não cabe querer ali suprimir a revolta pela violência, a única saída é investir fortemente na região vislumbrando um portão utópico de uma França novamente imperial e relevante no longo prazo. Se não for assim, a história dos dias de hoje se repetirá mais à frente, até a ruptura. Isto porque é difícil imaginar algum outro elemento criador de hierarquia e prestígio no mundo atual capaz de competir com o dinheiro.

Se o caso da Guiana ainda permite um acompanhamento meio passivo, tal fato deixou de ser verdade para o que se passa ao norte do Monte Roraima.

Certamente o degringolar do governo de Caracas manterá neutro o governo Trump. O séquito de Maduro vai seguir, malandramente, o business as usual de Chaves – inimigos, inimigos, negócios à parte – com seu petróleo. Isso não quer dizer que a região possa, então, por não estar sob pressão externa, ficar indiferente aos gritos dos desesperados que sentem a Venezuela afundar nessa experiência trágica. Mortes por razões políticas cresceram aos montes. É hora de um basta. O governo Maduro acabou e precisa ser convencido disso. Sorte dele se aceitar. Há um costume regional próprio do egoísmo extremado dos populistas, mera exibição de força: indicar Dilmas, Cristinas e Maduros para fazer o quiser. Indicou alguém que certamente iria fazer sentirem falta do falecido presidente.

A saída estridente que a Venezuela anunciou da OEA, chamando seus opositores de terroristas mostra a dimensão do fracasso do governo Chaves, largamente subestimada pelo Brasil.

Dentro de certos limites é bom ter uma bola de cristal. A política externa brasileira perdeu muito a capacidade de fazer prognóstico e se desinteressou por prever o futuro. Voltar à virtuosa cautela que sempre nos caracterizou é o que se espera, nesse momento, do Itamaraty.  Desenvolver a forma de ajudar à altura de sua responsabilidade sem conciliar com o intolerável.  Enquanto há uma narrativa de custo benefício discutível e subsiste significativo apoio popular, paciência. Uma vez degringolado para irracionalidade personalista perversa torna-se questão de direitos humanos.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

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