Dois séculos em 100 anos

05/11/2012

O Globo, 5 de novembro de 2012.

A 57° eleição americana acaba amanhã. O 18º Congresso do Partido Comunista começa, na quinta, em Pequim. Pela forma como é organizada a disputa nos EUA, toda a atenção recai sobre estados sem preferência partidária. Muitos decidem seu voto como quem corta a grama do jardim, sem nenhuma preocupação além das pessoais. Já na China, como a decisão é anterior à discussão, a mudança já se fez e Xi Jinping será presidente com Li Keqiang, primeiro-ministro.

As diferentes formas de escolha política não são um teatro, são, antes, fábricas de poder, renovação e origem de velhos “laços de sangue”. Nos EUA, um arrasador inundar de dinheiro busca fazer obrigatório o voto facultativo; na China, os mandarins vermelhos preparam o salto do tigre.

Para além das diferenças programáticas, essa eleição americana ainda será vista a partir da decisão da Suprema Corte de considerar legítimo o uso sem limite do dinheiro como meio de expressão. Como tal, seu gasto, para que se mantenha a garantia constitucional de liberdade de expressão, não pode ser regulado. É mais um estágio da consagração mundial da lógica do “um dólar, um voto”, ao invés do lúdico conceito de “uma pessoa, um voto”, ensinado às crianças.

Numa economia em crise, o slogan “toda política é local” é a máxima frequente no mundo das eleições. Mas, apesar disso, tal discurso tem sido confrontado com o avançar da globalização e seus efeitos na sociedade. Assim, a novidade eleitoral de nosso tempo é a fusão do discurso da economia doméstica com a internacional. E é nesse ponto que a sucessão americana se encontra com a chinesa.

A China é o bode expiatório da crise americana. O único assunto internacional que divide as atenções com a Ásia é o velho fantasma do Oriente Médio, com sua agenda à flor da pele. Os EUA estão lá há muito tempo. Durante a crise do canal de Suez, a administração Eisenhower deixou a Grã-Bretanha morrer como potência ao não socorrê-la nem financeira nem militarmente. Passada a crise, o poder americano elevou-se a um nível muito além dos tradicionais senhores da área, França e Grã-Bretanha. Harold Macmillan, então ministro da fazenda da jovem rainha Elizabeth II, lamuriou ¬– “talvez em 200 anos os EUA saberão como nos sentimos”. Hoje, a impressão é que os EUA sempre estiveram por lá. Protegendo cada regime que um dia derrubarão.

Tudo que a China quer é que os EUA se afundem no Oriente Médio. E a deixem em paz. Como era antes da reorientação política para o Pacífico, a faceta mais ousada da gestão Hillary à frente do Departamento de Estado, que bem avaliou que a derrocada da era Bush foi a obsessão com aiatolás e barris de petróleo. Ainda que o Pentágono insista que os EUA não queiram conter a China, essa é uma história que os chineses não compram.

O medo dos EUA é que talvez a profecia que Macmillan fez contras eles há 65 anos atrás – de um dia se verem destituídos de sua supremacia – se cumpra a favor da China com menos da metade dos tais 200 anos.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

 

 

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