Discurso Paulo Delgado

28/03/2000

Sr. Presidente, Deputado Eduardo Jorge, Sra. Deputada Marisa Serrano, autores do requerimento desta sessão solene, senhor Embaixador Jorge Whertein, representante da UNESCO no Brasil, Embaixadores, membros da Comunidade Bahá’i, estudantes, Parlamentares, funcionários, taquígrafos, membros do SISGLOBAL, membros do Parlamento Latino Americano, Sras. e Srs., primeiramente gostaria de agradecer ao meu Partido, o Partido dos Trabalhadores, a honra e a felicidade que me concede de falar numa sessão desta importância e nesta ilha de paz nos trabalhos do Congresso Nacional.

Quisera o Congresso brasileiro tivesse mais sessões como esta e se dedicasse mais à discussão das questões que combinam os problemas materiais com os problemas espirituais. O desafio da paz é um desafio para aqueles que vivem na abundância mas não resolveram os seus problemas espirituais e daqueles que vivem na miséria e nem por isso deixam de ser espiritualmente profundos. Se conseguirmos unir essas duas humanidades numa só, tenho certeza de que teremos condições de ter uma cultura de paz. E para ter essa cultura não devemos perguntar o que o século XXI poderá fazer por nós. Devemos, na verdade, nos perguntar o que nós do século XX levaremos de bom para o século XXI. O que sobrou desse século, desse milenarismo mais do que de um século? Até poucos meses atrás o Apocalipse de São João era lembrado por todo o mundo. O milenarismo levará a sociedade a um outro tipo de padrão de vida ou esse fim de milênio na verdade significa a possibilidade de confirmação de erros do século? O que é certo, e o século XX nos deixa e vários oradores que antecederam já mostraram isso muito bem, é que as “nossas vítimas nos conhecem por suas feridas e seus grilhões. Basta que nos mostrem o que fizemos delas par que conheçamos o que fizemos por nós”. Ninguém é irresponsável perante o sofrimento e a violência.

Todo o colonialismo na África, Ásia e na América que produz negros, índios e amarelos greco-latinos foi um sistema que impôs impiedosamente uma visão da cultura, que não é a única do mundo nem a única maneira de ver as coisas. Existem outros seres humanos trabalhando para uma sociedade diferente daquela que está predominando no momento. As pessoas de bem, cidadãos exemplares, existem e são a maioria.

O ser humano exerce um fascínio e um temor, mas principalmente uma grande esperança. Uma cultura da paz é possível porque mais trágico do que o sofrimento, a brutalidade e a insanidade possam ser, a perfeição inerente ao ser humano está sempre presente.

O fato de haver nuvens sob o sol não esconde a existência do astro. O fato de o ouro cair na lama não lhe tira a nobreza de metal. É preciso limpar a nuvem que obscurece o sol. É preciso retirar a lama que impede o brilho do ouro. Esse é o desafio de uma cultura de paz, porque nenhuma virtude é natural. É preciso se tornar virtuoso, e a perfeição somente se torna virtuosa pela educação, o ensino sistemático da justiça, da moderação, da coragem, da integridade e do equilíbrio.

A modalidade moral do ser humano só se realiza em dupla dimensão. Da tolerância, exercitada, premeditada, controla e disciplinada cotidianamente. No Parlamento que me ensinou isso muito bem foi o meu amigo Luiz Gushiken, já citado pelo colega Pedro Wilson. Gushiken que meu vizinho de gabinete nos três mandatos que exercemos juntos, e decidiu voluntariamente não continuar nesta Casa, ia ao meu gabinete todos os dias e dizia: “Paulo, leia sobre a sabedoria oriental. Há outra maneira de se ver o mundo, há outra maneira de se ver a sociedade. O mundo é uma só pátria, budista, cristã, oriental, ocidental”.

É preciso termos capacidade de ver o que há de grandeza e o que há de verdades nos seres humanos. A política obscurece muito essa dimensão humana das pessoas, sua modalidade moral. Não é só da tolerância, mas a modalidade moral de uma cultura de paz vem também do senso de obrigação. Ter o ponto de vista do outro, indignar-se contra a opressão, a violência, o preconceito, a discriminação, a ironia, a insensibilidade, a animosidade, a indelicadeza, a indiferença. O senso de verdade e de justiça antecede a ação verdadeira e justa.

Ouço a nobre colega, Deputada Esther Grossi, Secretária de Educação do Rio Grande do Sul, e membro da Comissão de Educação.

A Sra. Esther Grossi – Muito obrigada, caríssimo colega Paulo Delgado. O meu vôo atrasou e não pude chegar a tempo. No meu pronunciamento apresento o significado de uma cultura de paz a partir de um trabalho de educação nas classes populares, especialmente no Brasil, abordando uma outra forma de cultura, mas, sobretudo, mostrando como não ausência de agressividade; é canalização adequada da agressividade para a construção. Ninguém aprende sem agressividade. Senão aprendemos na escola o que seja digno e adequado, aprendemos a obter em outro lugar. Agradeço a oportunidade.

O Sr. Paulo Delgado – Ilumina V.Exa. o meu discurso com esse aparte e o seu pronunciamento que também fará parte desta sessão.

Prossigo Sr. Presidente.

Para ser tolerante é preciso saber o que é intolerável. E é intolerável, dentre várias das coisas ditas aqui, o desejo de prejudicar o outro, o racismo, a discriminação, a exclusão, o constrangimento; é intolerável não ser o reflexo daquilo que se defende; é intolerável parecer uma coisa e ser outra; é intolerável usar a violência a serviço da verdade na escola, na sala de aula, na família, na política, na igreja. O meio faz da verdade tanto quanto o resultado. E a verdade só pode se impor pela sua própria força de verdade. É intolerável violar a inocência de uma criança; é intolerável torná-la precoce pela brutalidade física, mental ou qualquer outra forma de ensandecimento de adultos sobre a alma infantil; é intolerável aceitar a familiarização crescente da sociedade com a injustiça, diminuindo as reações sociais ao sofrimento e à adversidade; é intolerável que os meios de comunicação divulguem a violência dissociada do sofrimento dos que a sofrem; é intolerável o declínio das forças da lei e o arbítrio na sua aplicação sobre os oprimidos; é intolerável o custo barato da vida dos ricos e a carestia cada vez maior na vida dos pobres; é intolerável a medievalização dos bairros residenciais, com suas mansões fortificadas e grandes aparatos e condomínios militarizados; é intolerável a tirania dos grandes sistemas industriais e empresariais sem cabeça e sem responsabilidade social; é intolerável confundir missão com carreira, sucesso com glória, que leva os agentes políticos a popularizarem suas atitudes mais do que a popularizar o povo, o destinatário delas. É intolerável considerar invasão da soberania nacional a defesa dos direitos humanos pela comunidade internacional.

A luta pela paz, Sr. Presidente, é uma luta pela cultura da paz, como quer a ONU e a UNESCO. A noção de esperança é uma responsabilidade em relação a si mesmo e aos outros. A base da ética da paz é mudar para mudar-se; aceitar a diferença e querer a diferença. É pelos direitos do outro que se funda a dimensão ética, universal, incontornável e inabdicável dos direitos humanos; vencer o desespero, a solidão, o instinto da morte e lutar contra o aviltamento da inteligência que prefere servir ao ódio e à opressão.

A arma de um combatente da paz é a sua humanidade. A violência desumaniza, a paz reumaniza. Encerrando, volto a Sartre, com que iniciei o meu discurso, no célebre prefácio do livro de Frantz Fanon Os condenados da Terra: Não importa o que fizeram de nós, o importante é o que fazemos com o que fizeram de nós.

Muito obrigado.

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