Destruições Criativas

06/02/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 5 de fevereiro de 2012.

O Fórum Econômico Mundial em Davos é um belo jantar de gala. A cidade mais alta da Europa acolhe todo ano, desde a década de 1970, altos dirigentes do planeta para um rendez-vous com ricos empresários e seus intelectuais favoritos. Um encontro plutocrático onde noventa por cento do tempo é gasto com auto-elogios ao capitalismo ali personificado e dez por cento com demonstrações de preocupação caridosa com os esquecidos, os renegados e os absorvidos em crises.

Esse ano, peculiarmente, o tom foi outro e insistente: falar mal do continente que se derrama logo ali abaixo dos cumes dos Alpes suíços. Há vários meses o capitalismo, tão acostumado a ser atacado de fora, vive sua hipócrita crise existencial. E, assim, o banquete celebrativo desse ano deu espaço à continuação das infecundas discussões que se desenrolaram nos salões de Bruxelas, Paris, Londres e Frankfurt. E que não foram suficientes para diminuir a divisão e o amargor que toma conta dos europeus.

David Cameron, o britânico egoísta, foi a Davos para reafirmar o descontentamento de seu governo com as decisões mal lideradas por França e Alemanha para solucionar os desacertos da zona do Euro. Questionado, se disse contente por não estar na sala onde o futuro da moeda européia era discutido. Assim os cinco dias de jantares, festas e – sim – reuniões em Davos, passaram a impressão de uma interminável discussão de família abastada e desajustada para a qual o mundo todo foi convidado a assistir.

A grande questão que permanece é que o momento atual do mundo é de razoável desacoplamento da sorte de uma parte desenvolvida e saturada – que passa por uma profunda crise de imaginação – da outra parte do planeta ainda cheia de problemas para resolver, mas que vai se desenvolvendo aproveitando as oportunidades oferecidas pela globalização. É evidente que um aprofundamento da crise na Europa prejudicaria os países emergentes. Mas o trunfo que países como Brasil, China e Índia têm é que, ao manterem seus cursos ascendentes, garantem o funcionamento do sistema global como um todo, que não mais se insere, nem se restringe, a contextos meramente nacionais.

Sendo assim, o verdadeiro perigo para os países em desenvolvimento é o desenlace – político – que a crise pode ter dentro dos países europeus e também nos Estados Unidos. Classes médias e baixas amedrontadas (aliadas a setores pouco dinâmicos do capital nacional) podem direcionar a política para um espectro conservador que ponha freio nas decisões pragmáticas tomadas pelos que confraternizam anualmente em Davos. Quem diria, que um dia, os países emergentes tivessem que torcer pela manutenção do status quo nos países centrais?

Todavia, os desacertos que emergem da difusão do capitalismo não são novos. Muito pelo contrário, são ciclos econômicos, como bem observou o tcheco Joseph Schumpeter, em seus livros desde os anos 30. É importante ter claro que várias décadas atrás o livre mercado foi, de semelhante maneira, fortemente desprezado nos países centrais. E se enfraqueceu sob o tacão de inflamadas paixões políticas (ainda moderadas no caso atual). No entre-guerras, a depressão econômica assolou o mundo e a prática do laissez-faire era incapaz de trazer soluções para o desemprego e o mal-estar crescentes, além de acusada de ser sua própria causa. Na época, diferente de agora, havia um sedutor discurso político alternativo que era o socialismo. Hoje, em que país do mundo o capitalismo está sendo contestado pelo socialismo?

Faltou Schumpeter em Davos. Quando explorou as entranhas de ambos os sistemas – Capitalismo, Socialismo e Democracia (obra de 1942) – argumentou famosamente que o percurso do sistema capitalista era feito de destruições criativas. Essa análise, que é bem conhecida nas atividades que sofrem constantemente com pressões por inovação tecnológica e de gestão, serve também para regiões que passam a ser mais eficientes do que outras para práticas estabelecidas. Cabe às que lideraram o processo sempre se reinventarem, dando novo curso para suas atividades econômicas. Esse é o custo de se estar na fronteira tecnológica: você tem que sempre pensar e criar o futuro. E é justamente isso que Europa, Estados Unidos e Japão parecem não conseguir mais fazer atualmente. O capitalismo do século XX pertence hoje aos países emergentes; aos países desenvolvidos caberia resolver o que vai ser do capitalismo do século XXI e rumarem rapidamente para lá, não obstruindo o crescimento dos que vem de trás.

O perigo que ronda o mundo é a falta de criatividade que gera o medo e suas alianças políticas desastrosas. De cabeça oca a política é mais tagarela. A sorte para os emergentes é que ainda não apareceu um sólido discurso anticapitalista. Ainda.

Paulo Delgado é sociólogo, foi deputado federal.

Correio Braziliense

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