Desalinhados

10/09/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 9 de setembro de 2012.

A liberdade deveria ser a principal lei da política, sua ausência domina e dirige tudo na sociedade e os países que se organizam contra ela acabam governados pelo medo e tendem a reinventar regionalismos e buscar direitos especiais. A experiência humana, mesmo diante da universalização crescente da informação e das possibilidades cada vez maiores de intercâmbio entre pessoas e nações, ainda é fortemente nacional. Mas, quando o que é somente nacional torna-se homogêneo é certo que mais separa do que une. A pluralidade, a diversidade e a mistura são o melhor caminho para bem viver em qualquer sociedade.

Dois terços dos países do mundo se encontram, de três em três anos, numa Conferência criada há mais de 50 anos na Indonésia e que foi batizada de Conferência dos Países Não Alinhados. Terminou semana passada em Teerã sua 16ª edição, mergulhada num passado que insiste em não passar. Tal encontro serve para muitas reflexões, especialmente porque representa essa estranha dificuldade que inúmeros países cultivam de não ir em direção à paz e à liberdade. Mas não é somente das misérias políticas que vêm as distorções da identidade nos governos do mundo.

Há muita coisa que a política até agravou, mas não se pode dizer que criou. “Na origem do pitoresco há muito de preconceito e a repulsa em compreender o diferente… Persiste o aristocrático prazer em contar as distinções: corto meus cabelos, ele trança os dele; sirvo de um garfo, ele usa palitos; escrevo letras com meu lápis, ele desenha coisas incompreensíveis com um pincel; tenho ideias diretas, e as suas são curvas: você observou que ele tem horror ao movimento retilíneo, ele só é feliz se tudo vai obliquamente…. Este homem que vem em nossa direção, você deve saber se verá nele de início um Alemão, um Chinês, um Judeu ou primeiramente um homem. E decidirá o que você é, decidindo o que ele é. Faça deste lavrador chinês um gafanhoto chinês, você se tornará no mesmo instante uma rã francesa”. Lembro em retalhos as ideias do filósofo Jean-Paul Sartre diante das fotos tiradas por Henri Cartier-Bresson na China, em 1948. Servem, ainda hoje, em algum momento, de carapuça para qualquer país – democrático ou não – do mundo.

Em 1955, Sukarno, nomeado presidente vitalício da Indonésia, recebeu em Bandung líderes da Ásia e da África que se autoproclamariam parte de um terceiro mundo. Mais de meio século depois de sua institucionalização, em 1961, o Movimento dos Países Não Alinhados continua afirmando sua razão de ser. São países e governantes de todos os continentes, a maioria sem poder na ONU mas com grande capacidade de exercer poder em casa e exigir obediência dos cidadãos que dirigem.

Tudo ia bem semana passada em Teerã com a crítica à falta de democracia dos outros, os “imperialistas”, até que o recém-eleito presidente do Egito irritou o anfitrião iraniano ao prometer apoio a todos os que lutam para “superar o regime opressivo” da Síria. Como o Irã assume a secretaria geral do Movimento pelos próximos três anos, em substituição ao Egito, esperava que a Conferência se constituísse como manifestação de desagravo, da totalidade dos países presentes, às críticas que também recebe sua teocracia militar. Com isso, previa aumentar o constrangimento internacional e, quem sabe, diminuir as ações que minam o atual regime. O que se viu foi o embaraço, de um lado, da delegação Síria e, de outro, dos países “moderados” ali presentes.

Agravou-se uma situação que já não era das melhores, pois Israel, cujo direito à existência é negado pelo Irã, havia boicotado a Conferência. Valendo-se do controle que tem sobre a fronteira com a Palestina, o país recusou conceder vistos de passagem para ministros de Cuba, Indonésia, Malásia e Bangladesh que pretendiam ir a Ramallah, na Cisjordânia, para uma conferência preparatória, organizada pelo Comitê Palestino dos Não Alinhados. Alegou, usando a singeleza da razão prática, que estes países, como não reconhecem Israel, não podem passar por lá.

De três em três anos, a Conferência dos Países Não Alinhados é, para seus críticos, um desfile dos excluídos, desajustados, caricatos, contestadores à margem da ordem mundial. Mas tudo que não são é desalinhados, despretensiosos líderes sem ambições. Alguns dentre eles governam potências incontestáveis e que projetam poder ainda maior no futuro. Se certamente não cabe mais a classificação de “terceiro mundo” nessa nova ordem multipolar, certos países ainda mantêm como identificação comum o sentimento de serem de segunda classe no cenário mundial.

O que consola é que da lei de ferro do preconceito ninguém escapa: em algum momento, seja rico, seja pobre, sempre se é o miserável de alguém.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.


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