As duas listas

01/02/2013

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 27 de janeiro de 2013.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) anda preocupada com a definição de doença mental que a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais  – universalmente conhecido como DSM-5 – está para divulgar. A ser lançado esse ano, e objeto de tensa polêmica no meio psiquiátrico norte-americano, a nova edição do DSM transforma o cérebro num disco rígido. Um computador sem alma, intoxicado, num mundo cada vez mais doente e que somente poderá ser salvo por remédios. A OMS alerta que não aceita a desenvoltura da classificação porque não é doença o que não pode ser caracterizado patologicamente, tem etiologia desconhecida, não possui padrão uniforme e não pode ser confirmado.

Como está, ninguém escapará da lista que vem aí. Quem não viveu, alguma vez na vida, alguma dessas graves “doenças” psiquiátricas: abuso ou abstinência de substâncias,  ansiedade, déficit de atenção, transtorno bipolar, confusão, desatenção, tendência à psicose, transtorno de personalidade, comportamento anti-social, apego reativo, amnésia, esquizofrenia, distúrbios diversos etc.  São tantos os nomes das “doenças do nervo” que agora viraram sinônimos de remédios e comportamentos, que começa a ficar preocupante o convívio humano. A menos que a sociedade perceba a gravidade  dessa verdadeira epidemia que fez o mundo ter mais farmácia que livraria. Epidemia que é querer tratar pela psiquiatria todas as dificuldades e problemas que fazem parte da vida e, assim, criar novos doentes.

Desde o massacre na escola primária Sandy Hook, na cidadezinha americana de Newtown, Connecticut, que a Associação Nacional dos Rifles (NRA), incapaz de continuar defendendo a venda armas sem qualquer restrição, esquentou o debate no país ao pedir socorro à psiquiatria. Propôs, depois de dizer, com ar de abandonada, que “não é a arma que mata mas quem lhe puxa o gatilho”, a criação de uma lista nacional de doentes mentais, ou de quem alguma vez na vida recorreu aos serviços psiquiátricos. Tal lista seria depositada nas lojas de armas e quem estivesse nela não poderia comprar armas para qualquer finalidade. Quem disse a esses senhores que maldade, egoísmo dos seres humanos é doença mental? Quem acha, em sã consciência, que o doente mental criou a violência gratuita de nossa civilização?

Junte os ritmos cada vez mais velozes e insanos da vida diária a essa forte tradição que tem a medicina de “encaixar um sintoma”, prescrever um remédio e mandar para o hospital, que vamos todos para as listas dos estigmatizados. Qual é a definição precisa de transtorno mental?  Perder um emprego, sofrer um acidente, perder um amor, perder-se na vida durante a juventude: quem, um dia, não precisou de um pouco mais de atenção ou afeto, que vem pela vida pessoal, mas pode vir, também, através de terapias?  E, por isso, é justo ir parar em uma lista de tutelados? Quem pagará pela tragédia que o diagnóstico errado causa na vida das pessoas? Quem cuidará, sem abandono, dos verdadeiros doentes ?

O sofrimento de uns e a maldade de outros são cada vez mais tratados como doença. E o mal estar diante do mundo é visto como um distúrbio psíquico que exige intervenção sanitária. A ambição grandiosa da psiquiatria está cada vez mais parecida com o sem limite do mercado financeiro. Ao amedrontar e submeter pessoas pela criação de patologias, a sociedade se livra de enfrentar racionalmente crises e injustiças. Desiste de regras de entendimento coletivo, exercidas democraticamente, sem sujeição ao medo ou à sua manipulação. Não é pela medicina que vamos enfrentar os graves problemas da violência atual. Nem basta relacionar sintomas para definir como transtorno qualquer manifestação da personalidade.

Quando a prática da medicina, subjugada à indústria de medicamentos, se oferece como panaceia, ficamos diante de uma verdadeira bomba embrulhada como se fosse terapia. Pior quando o diagnóstico médico converte-se em missão sanitária destinada a esconder hábitos e tarefas de uma sociedade indiferente à vida dos outros. E que só vê as pessoas de forma binária, como dois polos da vida do interesse: ou exitosas, ou fracassadas.

As listas são “inventários de cicatrizes”, vestígios de uma contabilidade que serve para afirmar o poder do Estado e das instituições coercitivas sobre a liberdade dos indivíduos. Uma vez nelas, ninguém se iluda que dali sairá, nem que elas serão usadas para outros fins além dos que se destinam. Há um lado saudável nas políticas de saúde quando acolhem com atenção, mas há um lado racista que busca a marca humana do doente, para a discriminação.

Dar o nome de doença à indiferença social e somente ver a medicina como remédio e hospital só aumenta a tragédia que é ver o sofrimento não gerar mais afeição.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

 

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