As cidades invisíveis

16/07/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 15 de julho de 2012.

“Place de la Concorde: o Obelisco. O que, há quatro mil anos, foi ali gravado, ergue-se hoje no centro da maior das praças…. Ninguém dentre dez mil que passam por aqui se detém; ninguém dentro dez mil que se detêm sabe ler a inscrição…O imortal está presente como o obelisco : ele rege um trânsito espiritual que circula ruidosamente ao seu redor, e a inscrição ali gravada não é útil para ninguém”. É do filósofo Walter Benjamin a descrição acima sobre a movimentada praça parisiense, ornamentada por um troféu de guerra que nunca foi devolvido ao povo egípcio. Paris figura, há vários anos, em todas as listas das dez melhores cidades do mundo para se viver, mesmo que nem tudo na cidade luz possa ser compreendido por todos que dela usufruem.

A Economist Intelligence Unit (EIU), consultoria empresarial da The Economist, a influente revista inglesa, voltou a publicar sua lista das melhores cidades para se viver. Dirigida, preferencialmente, a empresas multinacionais, serve de orientação para investimentos de todo tipo: abertura de escritórios, fábricas, definição de salário de diretores espalhados pelo mundo. Seus rankings, apesar de apresentarem um claro viés para os países da commonwealth e serem o suprassumo do elitismo anglocêntrico, não podem ser desprezados, porque mostra bem o sinal dos tempos. Na última versão, publicada neste mês, a The Economist elege Hong Kong como a melhor cidade do mundo. O antigo enclave britânico no delta do rio das Pérolas é a capital financeira da região que é hoje a maior área industrial do planeta. Não deixa de ser curioso ver a principal publicação de assuntos internacionais da velha Londres referendar sua desgarrada prima chinesa. E não é só amenidade ver a simpatia e a sensação de estar em casa coincidirem com o fato de boa parte da moeda da pós-moderna Hong Kong ser impressa pelo banco inglês HSBC.

Desde as edições anteriores a lista segue, de uma maneira ou outra, o charme da rainha. Assim, com exceção de inevitáveis cidades europeias, o melhor do mundo está concentrado no Canadá e na Austrália. E nos Estados Unidos, a surpresa é Honolulu, capital do Hawai, hors concours para quem vive a vida como surfista. Uma ofensa a Nova York, a sedutora e cheia de oportunidades maçã do Atlântico Norte.

A inovação das cidades é uma obrigação dos que podem mais. É o retrato, em cada país, do que as elites nacionais impõem às práticas urbanas. Basta observar Port Louis, nas Ilhas Maurício, estrela do Índico e melhor cidade africana, para entender o que a elite do continente poderia fazer com suas cidades. Sem surpresa, os piores indicadores da qualidade da vida urbana estão nas regiões mais corruptas e autoritárias do planeta, na África, Oriente Médio e Ásia. Nossa América do Sul, com suas cidades egoístas e socialmente estratificadas, pouco aparece entre as 70 melhores.

Saber qual a melhor cidade do mundo para se viver depende mais do ponto de vista de cada um do que da cidade propriamente dita. Ainda que os critérios sejam abrangentes e essenciais para um bom ambiente urbano – consciência ambiental, segurança pessoal, infraestrutura eficiente e universal de uso coletivo, transporte de massa por metrô e trem, saneamento e água potável, estabilidade política e econômica, etc – uma cidade habitável é fundamentalmente uma cidade onde exista tolerância, convivência comunitária, trabalho e lazer. Ou seja, saudável e civilizada oportunidade de vida.

E é claro que se as pessoas votassem, é certo que a lista inglesa teria que ser rasgada. “Dito isto, é inútil determinar se Zenóbia deva ser classificada entre as cidades felizes ou infelizes. Não faz sentido dividir as cidades nessas duas espécies, mas em outras duas: aquelas que continuam ao longo dos anos e das mudanças a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos conseguem apagar a cidade ou são por ela destruídos.” Isto é de Italo Calvino, no seu livro As Cidades Invisíveis, onde Marco Polo, o mercador de Veneza, ajuda o imperador dos Tártaros a construir seu império perfeito a partir dos relatos das cidades que conheceu. A cidade ideal não se vê no espelho do mundo real, pois cada lugar revela seu sentido e tem muito de sonho e imaginação ser querida por seus habitantes. A cidade ideal não se deixa dominar somente pelo olhar afiado dos que a veem como negócio, sem coração, imaginação ou memória.

O que ameaça a vida das cidades é o esgotamento dos desejos de busca de convivência e progresso. O que pode salvá-las – tornando-as mais habitáveis – é quando a lista das nossas melhores lembranças e identificações impulsiona seus líderes para a melhoria da sua riqueza e multiplicidade. A melhor cidade do mundo é paradoxal e coexistente, unificada e suplementar. Todo dia descoberta e aperfeiçoada como deve ser a própria condição humana daqueles que nela vivem.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.

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