Adeus, Tocqueville!

11/08/2011

Correio Braziliense e Estado de Minas – Domingo, 7 de agosto de 2011

Até aqui, os americanos evitaram com sucesso todos os perigos da manipulação da democracia. Admirado com o senso de bem comum dos líderes que visitava, assim pensava o aristocrata francês na América.

Observou ali que a liberdade política exerce forte papel no desejo de se associar em busca do progresso e da felicidade. É mesmo útil à produção da riqueza. O espírito de grupo e sua regras fechadas, este sim é tirano. E opõe-se diretamente ao gênio do comércio e aos instintos do desenvolvimento. A fórmula o encantava, pois sabia que nos tempos democráticos os homens livres alcançam mais facilmente os bens materiais pelos quais suspiram sem cessar. E em torno dos quais legitimamente muitos se distinguem. Um individualismo virtuoso, digamos assim.

Até que alguns, os eleitos para representar o povo, passam a manifestar gosto pela formação de grupos. E, por cobiça e paixão impune, encontram caminhos próprios para usufruir privadamente do que é de todos. A partir daí o despotismo das facções e o individualismo possessivo enveneram a vida da sociedade.

Quando o gosto pelo poder que o consumo traz é maior do que as luzes e hábitos da responsabilidade e liberdade partilhada, é chegado o momento em que os homens ficam fora de si. E, arrebatados, querem se apoderar de tudo, inclusive da alma da nação. Preocupados em enriquecer do dia par a noite, ter mais poder e influência, menosprezam o vínculo estreito que une a fortuna particular de cada um à prosperidade de todos. Neste momento, o exercício de seus deveres políticos lhe parece um incômodo que os distrai de sua cobiça. Não há mais tempo para cuidar do bem comum.

Tocqueville não perdoa e diz que essa gente que se comporta assim acredita seguir a doutrina do interesse compreendido, mas só tem dela uma ideia grosseira. Pois até para zelar melhor pelo que chamam seus negócios, negligenciam o principal, que é permanecerem donos de si mesmos e não deixarem seu lugar no governo ficar vazio. Tal disparate não é raro ver na vasta cena do mundo, que como nos tetros, a multidão ausente e desatenta aceita ser representada por poucos. Porém, ousados para mudar leis e organizar a seu bel-prazer os costumes.

Quando a energia da política é concentrada para fazer da influência benefício privado, a honestidade se despede das virtudes públicas.

A hegemonia brutal do sistema financeiro sobre a ordem mundial – o ocioso e rico braço do sistema econômico – é a principal causa da desarmonia atual das coisas. A economia sempre foi o motor da ligação imperfeita entre a política e a sociedade, mas encontrava na política o freio às relações deletérias que a ambição de grupos privados, o principal fator de desestabilização da vida social e econômica. É a morte do liberalismo, e não o contrário, a origem da crise econômica que arrasta a Europa sem desrazão, e os Estados Unidos em insensatez.

Se o interesse não é bem compreendido, as ações derivadas dele menos ainda. O poder pelo poder é cego diante das necessidades econômicas mais gerais. Vira as costas à sociedade. Não é outra a sensação atual: o jogo parlamentar é a manifestação mais precária da democracia em todo o mundo. Pois quem se transforma em representante de interesse de grupos torna-se menos exigente quanto à escolha de suas condutas.

Processos conhecidos não regulam mais as relações políticas. É a magia do poder. Não é o direito, é a legislação que muda a toda hora. Não é a norma, é o hábito. É a atitude, motivação, conduta estruturada pela aversão à explicação. É o fato. Feito. E pronto.

Na política, os homens não recebem a verdade de seus inimigos e seus amigos tampouco a oferecem. A democracia da América deu adeus a Tocqueville.

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Paulo Delgado é sociólogo. Foi deputado federal.


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