A Universidade do futuro

28/10/1997

ESTADO DE MINAS, 28 de outubro de 1997. Opinião.

“…O CIENTISTA brasileiro deu, por sua vocação e capacidade, a dimensão da pesquisa espacial para a vida…”

PAULO DELGADO*

Protagonista. Este o novo papel e condição do Brasil nas relações científicas internacionais a partir da assinatura do acordo com os Estados Unidos para nossa participação no consórcio de construção da estação espacial internacional, a mais importante Universidade do futuro de que se tem notícia.

É claro que o convite feito à ciência brasileira pelos países desenvolvidos é o coroamento de anos de trabalho e pesquisa para consolidação de nosso programa espacial, o maior e mais consistente do hemisfério sul. Trabalhando em condições precárias, nem sempre recebendo estímulo adequado à grandeza do que se desenvolve, o cientista brasileiro deu, por sua vocação e capacidade, a dimensão da pesquisa espacial para a vida cotidiana. Da metereologia a agricultura, das comunicações a segurança pública, do sensoriamento remoto a engenharia de trânsito, do controle do tráfego aéreo ao avanço da medicina, a ciência espacial plasma o mundo do futuro, para melhor. INPE, CTA, Embrapa, Infraero, Universidade de São Carlos, Unicamp, Barreira do Inferno, Alcântara, Embraer e AEB são alguns nomes da teoria e prática do uso do espaço em benefício do cidadão brasileiro.

Na prática, na prática, a importância da presença brasileira traduz-se na capacitação da indústria nacional para fornecimento de componentes da estação orbital, criação de novos empregos nesta área, controle da tecnologia de sistemas e subsistemas, que permite o salto de qualidade gerador da autonomia e do intercâmbio entre iguais. Novo estágio da cooperação internacional onde são flagrantes os benefícios científicos, comerciais, político-sociais já sinalizados pelo muito que fizemos até aqui.

Só quem controla informações precisas de fenômenos metereológicos, como por exemplo, o “El Niño”, pode tratá-lo como uma questão de planejamento estratégico, defesa civil, deslocamento de estoques reguladores e seguro agrícola. Só quem possui satélites metereológicos e de observação da terra gerando os produtos de sensoreamento remoto discute em igualdade de condições com os países que controlam as agências de desenvolvimento e preservação ecológica, qual o grau de responsabilidade de cada país na poluição e destruição da natureza.

Mas, não fosse pela ciência e sua cinética progressiva inevitável, nossa participação neste clube dos quinze maiores países do mundo na pesquisa espacial, valeria a pena somente por elevar nosso patamar gerencial no trato de grandes projetos. O desafio de participar deste grande programa por si só nos coloca no espaço do futuro, agora como protagonistas.

*Deputado federal (PT-MG), membro das Comissões de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.

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