A UNESCO E OS EUA

07/12/2017

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 29 de outubro de 2017.

A mais vital expressão das dificuldades da política mundial é conviver com o que a Casa Branca acha do dia a dia. A residência oficial do presidente norte-americano deveria ser o centro da difusão de toda revolta contra a autoridade arbitrária. Afinal, o país tem um imenso orgulho de propagandear que sua sabedoria como nação veio da liberdade. Mas o que vemos é que o repertório de instintos dos EUA contra a UNESCO, organização das Nações Unidas para Educação e Cultura, com sede em Paris é contínuo, une democratas e republicanos, nunca se renova e, tem sido uma verdadeira renúncia à inteligência.

Devorado pela necessidade de ser leal a Israel e manter uma distância regulamentar do pensamento da esquerda democrática ocidental, cujos compromissos não foram marcados em Nova York, os EUA não reservam nenhuma surpresa para quem os admira, mas não os obedeça. Há algo de sórdido mesmo na esperança, alerta R.W Emerson, seu emocionante poeta no ensaio “Independência”. A alma da política externa para a Unesco não é “a alma que se ergue acima da paixão” e, por isso, “não contempla a existência autônoma da verdade”.

Claro que a maioria controladora da Unesco ajuda pouco a livrar a organização das rapacidades da política multilateral. Parece contemplar com certa satisfação a ruina e o vazio de sua influência internacional, mesmo dentro da própria ONU. Nenhuma dos lados compreende o velho ditado que diz que boas cercas fazem bons vizinhos.

A história do ziguezague de Washington com a Unesco se agrava em 1984 quando Ronald Reagan abandona Paris acusando a organização de favorecer a cultura do bloco soviético. Dezoito anos de irritação e omissão se passam quando em 2002 Georg W.Bush volta à Unesco, como se não tivesse saído, seguro que a organização estava sob o controle virtuoso e sem risco de maioria anti-Israel. Passa o tempo e eis que Barack Obama, em 2011, concorda com o embaixador de Israel quando diz que a Unesco cuida de ficção política, mais do que ficção científica. A razão do novo rompimento, que fez os EUA irem aos cofres e pararem de pagar a Unesco, é a decisão da organização de cultura, educação e ciência da ONU de considerar a Palestina seu membro pleno. Sem alimentar nenhuma intenção de influenciar o Conselho de Segurança para mudar sua posição e reconhecer o status político da Palestina, a Unesco se liberou e decidiu mandar um recado aos seus, mas sem sair da ONU.

Agora, mais uma vez, Donald Trump mantem a tradição e diz que sai outra vez, daqui a um ano. O rumor é a decisão da Unesco de incluir a cidade velha de Hebron, na Cisjordânia, como patrimônio mundial. E, provocativamente, como patrimônio em risco, pela presença de colonos e soldados israelenses, numa região de maioria palestina. O pessimismo normativo da visão seletiva de cultura costuma querer ver no céu o que a política não vê na terra.

Quem continua querendo que o Túmulo dos Patriarcas não dialogue com a Mesquita muçulmana?

A verdade, todavia, parece ser a mais pura política de poder: o candidato favorito para suceder a búlgara que preside a Unesco é árabe, do Qatar.

Os EUA nunca gostaram da UNESCO. Aquele prédio em Y modernista encravado atrás da École Militaire, onde formou Napoleão, e que a França usa para seu sentir-se glamourosamente poderosa, muito mais do que para endereçar uma agenda coerente, eficiente e eficaz dos rumos da educação global e sua constelação cultural.

Pode ser que líderes menores estejam estendendo o absurdo da vida.  Na dúvida, é até bom que virtudes pequenas andem nos dividindo tanto. Desde que não os levemos mais a sério. A Unesco deveria refletir sobre como anda dividindo os ambientes comuns e amplos de discussão sobre o patrimônio cultural da humanidade. Nenhuma vontade bloqueadora de mudança que venha dos EUA; nenhum clichê do passado que venha da França, prevalecerá sobre a vida comum que predomina na terra. Muito barulho por nada.

Há muita comparação da situação de hoje vivida com o período pós 1929. Felizmente a sociopatia que aglutinou no passado e nos levou a guerra não é mais a mesma.

Já vinha desde 2011 a suspensão dos pagamentos dos EUA para a UNESCO. Dali em diante, os EUA influenciaram cada vez menos as escolhas da instituição. A elegância da agenda sob a guarda da organização parisiense é inegável, mas não deveria ser tão abusada como anda. O poder, acima de tudo da França atual e seus escolhidos, não anda em condições de confrontar disputas duras. A aceitação disso pode ser intuitiva e transitória, pois tudo muda. Desde que as pessoas sejam abertas para pensar, mesmo em hipótese, que o que mais brota das crises atuais é a escassez de sabedoria.

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PAULO DELGADO é Sociólogo.

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