A Solidão Síria

27/07/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 22 de julho de 2012.

Cada vez que se ouve falar em soberania e autodeterminação das nações para conduzir sua política interna, é possível imaginar uma mentira ou uma injustiça sendo praticada. Num mundo em rede, o principal elemento de legitimidade é compartilhar a tolerância entre nações, mais do que buscar convivência a qualquer custo entre os Estados. A guerra civil na Síria só se mantém porque a multiplicidade dos poderes nacionais que tomou conta da Organização das Nações Unidas (ONU) é aliada da intensidade da paixão dos seus membros pelo status quo.

Sem conseguir dar respostas políticas e organizacionais aos problemas do mundo atual, a estrutura política corporativa e centralizada das Nações Unidas não consegue agir por objetivos claramente pacifistas, espiritual e intelectualmente sustentáveis. Acaba não sendo um grupo multivocal de autoridades nacionais, caracterizado pela responsabilidade mundial comum com capacidade de impor um padrão mínimo de convivência civilizada entre todos os países. E não são tamanhos diferentes, desigualdades econômicas notórias, assimetrias de poder político, tecnológico e militar, maior ou menor capacidade de tomada de decisão local e regional que impedem a consolidação de uma cultura de interdependência decisória, onde nenhum Estado, maior ou menor, pode ignorar o outro.  Apesar das execuções sumárias e barbaridades de todo tipo contra sua população, o problema da poeira sem cor que o debate sobre a Síria levanta nas escadas e corredores da ONU é o retrato do desmoronamento do sentido do intolerável sob o olhar uno do poder.

Na época da extinta Liga das Nações – a antecessora da ONU – foi essa neutralidade e indecisão que chancelou o agravamento dos conflitos que levaram á IIª guerra Mundial. Hoje é melancólico ver homens de decisão  dizerem que nada podem fazer contra matar pessoas, enquanto isso for razão da politica interna. O que é hoje exclusividade nacional se basta desempregar pessoas para que todos saibam como tudo é responsabilidade mundial?

Os países, na ONU, usam uma lógica de raciocínio que podemos chamar de “soberania geometricamente variável”, visando adaptações geopolíticas e compromissos diversos conforme a “crise” pela frente. Agir assim é um “modo” arcaico e superado de ver o mundo atual através do modelo da formação de blocos. Se para questões econômicas esse modelo colegial de andar em grupo pode dar certo em alguns casos, para questões de princípio e solidariedade humana é uma boa forma de dar tempo aos ditadores para seus experimentos de poder.

Que relações a politica real pode estabelecer com a vida onde governos atiram e matam seus opositores? O pouco interesse da maioria da ONU pela sorte de algumas regiões do mundo – frequentemente o Oriente Médio – demonstra como as coisas continuam bem equilibradas dentre os grandes conjuntos de dominadores globais. Ou alguém acredita que as armas (velhas) da Rússia justificam conceder a Putin – ou qualquer outro governante de armas novas – tanto poder sobre o destino da tirania de Bashar Assad?  Há limites para tudo. Especialmente porque desligar-se do drama humano vivido pelos outros, em nome do direito absoluto do Estado ou das circunstâncias próprias dos negócios políticos, ajuda pouco ao aperfeiçoamento do planeta. Cabe aos governos nacionais mergulharem mais fundo em valores universais e aceitarem a prevalência dos direitos humanos na condução de seus interesses, restaurando a fé na solidariedade e na democracia.

Não é tolerável que o mundo continue conduzido pela busca da conformidade e da correspondência entre conjuntos de força e poder tradicionais que precisam ser superados. É mais promissor oferecer um ponto de fuga para quem acredita em valores – diga-se, a maioria do mundo –, e apostar no isolamento e contenção da cólera de governos violentos. Consolidando assim uma nova fronteira de pacifismo, que permita um pouco de otimismo nas relações entre países e busque na identidade de princípios e objetivos o sentido para a vida em sociedade. Uma alternativa ao pragmatismo do homem plano da macropolítica, desinteressado da narração da vida fora das relações de força e poder. Que tenha expressão política reconhecida e sem medo de ceder lugar à vontade de solidariedade social dos cidadãos.

É possível imaginar um mundo em rede, com identidades e liberdade reconhecidas e conversação permanente com o futuro. Cuja vida se mova por ressonância mútua entre pessoas distantes das hierarquias de poder, que não têm tempo para compartilhar esperanças. Um mundo de cidadãos cooperativos, influenciados por múltiplas correntes de pensamento crítico. E que se faça superior, em seu desejo de influência e ação, ao interesse da administração do poder politico, que obcecado em ocupar um campo ou outro do espectro de poder, fez-se cego às fronteiras do humanismo.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.

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