A náusea eleitoral

07/05/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 6 de maio de 2012.

A melhor forma de definir a campanha eleitoral francesa é a náusea. O mal- estar do discurso dissimulado e passional. A França tomou um porre de globalização e se descobriu pequena. Do tamanho do Sarkozy, seu presidente performático e subjugado à camisa de força da austeridade proposta por Berlim. Em um mundo de um bilhão e trezentos milhões de chineses, um bilhão e duzentos milhões de indianos, 300 milhões de estadunidenses e por aí afora, seus 60 milhões de habitantes diluídos nos 500 milhões da União Europeia sentem-se numa província.

A globalização não é para os fracos. Ela melhora a vida de muita gente e eleva o nível geral de riqueza no mundo. Mas faz isso causando instabilidade e forçando as pessoas a se deslocar; a mudar de vida, modo de pensar e conviver. Para aquelas em que o custo material e espiritual de deslocamento é muito alto, ela é odiosa. Já para quem tem condições de mudar com maior facilidade, seja porque tem muito ou porque tem muito pouco, ela é um bálsamo que abre um mundo maior de possibilidades.

Nesse mundo, as elites francesas estão se dando muito bem. Porque as elites são sempre transnacionais, não se prendem às fronteiras, enquanto que os cidadãos que passam dificuldades acabam presos à ideia de proteção, assentada na mística de um passado glorioso. Essas pessoas têm muita dificuldade de mudar, porque a mudança que querem é a volta para o passado. Nascer num país rico e ver a sua situação piorar comparativamente ao longo da vida leva, por definição, ao reacionarismo. Por outro lado, o pobre do país em dificuldade não tem saudade do passado: só o futuro lhe serve de horizonte fortalecendo a disposição para tornar-se migrante. Como o são, curiosamente, os magnatas dispostos a enriquecer em qualquer lugar.

Daí, é uma patente enganação o malabarismo que Sarkozy praticou para passar a ideia de que pode defender, ao mesmo tempo, o grande capital francês que o financia – e é contra uma França isolacionista – e a maioria que se considera vítima do seu governo globalizado.

A estratégia de Sarkozy foi de convencer as pessoas de que a situação está absurda. Se fez passar por portador desse mal que ele insiste em explorar como se não fosse candidato à reeleição. A grande ironia, e que oculta uma óbvia decepção, é que Sarkozy não é o tradicional representante dessas pessoas. Para se manter confortavelmente ligado e financiado pelas pessoas que se beneficiam da globalização ele precisa, também, dos voto da extrema direita que acompanha a mancha deixada pela desindustrialização. É um voto de interior e de cidades empobrecidas que não atraem imigrantes. Ou seja, o discurso, recheado de sentimentos negativos, é totalmente distorcido – racista e ultra-nacionalista – é sintetizado no inexplicável refrão: “orgulho de ser francês”.

Há onze anos o então presidente da Alemanha, Johannes Rau, sem querer deu início a um acalorado debate em seu país por dizer não sentir orgulho de ser alemão. O bate-boca gerado no país de Goethe foi confuso e distorcido, mas em todo pequeno instante, impregnada e gritante estava a culpa pelos horrores da Segunda Guerra. Rau professou sem medida seu racionalismo e acabou por levantar toda uma discussão sobre quando afinal de contas acabaria a “dívida (moral) de guerra” da Alemanha. O caso da França é totalmente diferente, e Sarkozy, não sabendo explicar isso ao eleitorado, embrulha o orgulho junto com o ataque aos estrangeiros.

O problema do favorito François Hollande não é muito diferente quando se põe a inventar mitos. Apesar de não ter tido a ousadia de apelar, como Sarkozy, para discussões extremistas, escolheu os ricos para pôr a culpa pelo enfraquecimento da França. Mas ele sabe que seu maior desafio é romper o pacto anti-crescimento assinado pela dupla Sarkozy-Merkel e impedir que França comece a se parecer com a Grécia, Espanha e Itália.

Com a demora da recuperação econômica da Europa a insatisfação da população só vai aumentar. Uma vez assumindo o Palácio do Eliseu, Hollande vai se encontrar em meio a grandes dificuldades por causa de uma opinião pública que logo ficará insatisfeita. E aí, ou fechará a França ao estrangeiro ou vestirá a máscara de Sarkozy.

Mirando a rua onde fica a sede do Partido Socialista em Paris está uma imponente estátua de Thomas Jefferson. Embaixador em Paris antes de se tornar presidente dos Estados Unidos, Jefferson gostava de dizer que “toda pessoa tem dois países, o seu e a França”. Tomara que o orgulho francês permaneça assentado na ideia de ser um país tão bem quisto mundo afora. Pois como também pensava Jefferson, é melhor “estar exposto às inconveniências de demasiada liberdade, do que àquelas que acompanham um grau reduzido desta”.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.

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