A Liquidação do Sentido: Desconforto

18/06/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 17 de junho de 2012.

Manada, os líderes se comportam como manada. A verdade não tem mais influência sobre a política. E a falta de personalidade a que são forçados os países, obrigados a fazer tudo igual, lembra o sofrimento dos canhotos quando só era permitido escrever com a mão direita. Para além dos debates nacionais entre progressistas de toda sorte e conservadores dos mais diversos interesses, há um ar de devastação nesse conformismo geral imprevidente, provocado pela aceitação das regras da economia consumista.

O mundo caminha para uma encruzilhada que não deve ser menosprezada. Talvez aí a razão dessa indecisão politica que toma conta dos 17 países da Zona do Euro, uns bem ricos, outros mais pobres, em relação à sorte e a responsabilidade de uns e outros. E não é exagerado dizer que a paralisia de comando político, em virtude do temor de gerir os problemas econômicos, é mais fruto da impotência da política para entender o mundo atual, do que da força da economia.

É insignificante o poder da política diante das máquinas econômicas e financeiras mundiais. Inconsciente ou não, o Estado não sabe como botar regras na satisfação imediata de desejos e nessa forma de organizar o mundo em torno da mania de vender e comprar coisas, cada vez mais além das fronteiras. Para os países mais pobres e emergentes a globalização melhorou de fato a vida das pessoas. Só que a saciedade desconectada da realidade também tem seus inconvenientes. Para os países dominantes, até agora a crise permite agir contra o novo balanceamento de poder criador da multipolaridade. Ou seja, a demora na solução dos problemas econômicos parece servir para botar um freio de arrumação no mundo da riqueza sem ameaçar os países tradicionais que já têm tudo, inclusive bens de uso coletivo.

A mudança na divisão de poder internacional inquieta os países centrais, que sabem que o primeiro passo do poder de fato é a relevância econômica das nações, qualquer que ela seja. Mas o caminho escolhido para a acumulação e o desenvolvimento recente é uma catástrofe: o da riqueza materialista como vício sem limites e cuja educação técnica e profissional requeridas para atingi-la não está baseada em fins humanistas, afetivos ou solidários. Há até países que envolveram a educação como fator fundamental da produção e enriqueceram, mas são descuidados em elevar o nível cultural e espiritual do seu povo como principal força criativa. É uma obrigação produzir, comprar e se divertir permanentemente sem questionar nada, nem se preocupar com a vida dos outros ou lutar por proteção social pública para todos.

Do jeito que andam as coisas o ajuste se fará punindo especialmente os cidadãos consumidores em sua fugaz alegria. É um carrossel que roda sem parar: o Estado gasta dinheiro para socorrer os bancos; que pelo crédito alimentaram a ciranda financeira; que tornou inadimplentes cidadãos impulsionados ao consumo excessivo mesmo pelas mãos do Estado; que parou de investir em bens públicos encarecendo a vida privada; o que só se agravou pela diminuição da atividade econômica que produz o desemprego; que diminui a arrecadação; que derruba os salários e corrói a confiança da sociedade.

A grande característica das últimas décadas é que a livre movimentação de capitais e mercadorias faz a riqueza crescer e se multiplicar artificialmente em um mundo de Estados nacionais, frágeis e desorganizados. O capital é transnacional, mas o ser humano é nacional. A divergência de interesses é patente, mas a coexistência é forçada. O caminho da integração mundial é por um lado utópico e por outro, no que há de prático, ainda tem um longo caminho a percorrer. Sua máquina, mesmo se consertada de forma rápida, continuará seguindo acelerada o caminho único que deve ser visto com ressalvas pelos humanistas e líderes democráticos. Seu tempo mais longo de conserto é também o tempo propício para se alterar os trilhos onde a capacidade de gerar riqueza seja acompanhada do dever e da responsabilidade de criar felicidade e segurança para todos. E, quem sabe, encontrar valores não mercantis, ou mais do que simplesmente comerciais, nos bens e produtos que usamos. Assim, ao se melhorar de vida se poderá diminuir a solidão da riqueza que se manifesta quando esta serve mais para separar do que para aumentar a proximidade entre as pessoas.

Se pelo menos o mundo puder saber para onde não quer ir os tempos de crise poderão até valer a pena. Poderão sair daí relações internacionais mais cooperativas e uma globalização menos egoísta. Pois uma coisa é certa, a vida está melhorando e muito por causa do acesso mais universal à bens de consumo, do lazer à medicina. Apesar do desconforto que é não ter esperança em muitos líderes e países e sentir, na imposição desse tipo de progresso, aquela malícia que não faz bem a alma de ninguém.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.

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