A Escolha

11/01/2009

A urbanidade começa pelo chão, a livre circulação e a iluminação

Quem é o culpado pela desventura da cidade? Quem a tornou tão feia? Na vida, às vezes, a esperança no futuro mascara a angústia do presente. Em boa hora tomam posse os novos prefeitos. Para o bem e para o mal, decidir é seu ofício. Mas o poder político que daí deriva não pode ter primazia sobre a qualidade de vida dos habitantes da cidade. Depois da posse são suas escolhas seu maior poder.

O que é o lar de cada um? Domicílio, residência, moradia, habitação ou mera caixa de correio? Se o Estado sabe o endereço de todos na hora de cobrar, por que não sabe na hora de preservar? Todos os moradores são contribuintes. Todo prefeito deve ser exemplar. Atento para a vocação local, preciso para acompanhar a solução dos problemas e perceber o equívoco ou mérito das grandes políticas nacionais e a consequência do desmazelo em relação a elas. Disposto a perder o ímpeto para impor lei unilateral, viciar vereador, tutelar conselhos e associações de moradores. Contido em sua ética quando ela for hostil à estética da cidade.

Pode combater o empobrecimento cultural e visual que a poluição da publicidade política e comercial impôs aos cidadãos, embotando seu tirocínio. Não é mais tempo de prefeitos que cortam árvores, ou as escondem, para mostrar o outdoor. Uma cidade moderna está centrada na alma comunitária que são seus bairros e habitantes onde predomina o ardor pela justiça, tranquilidade, solidariedade. Para os cidadãos a cidade é sempre uma solução. Os problemas são uma questão de administração.

Nem os que se beneficiam da amizade do prefeito sobreviverão às suas escolhas erradas. Atenção aos replicantes, eles podem ter razão. Nenhum político deve pretender-se a síntese de todos que governa. A urbanidade começa pelo chão, a livre circulação e a iluminação. Desobstrua, conserte e amplie as calçadas, afaste prédios invasores. A cidade é como um raio que se ilumina de baixo para cima.

Reconheça o valor da economia subterrânea e informal. Crie condições para sua legalização, tornando mais fácil, belo e vantajoso ser honesto.

Seja um prefeito ecoeficiente, parceiro na gestão sustentável. Se interesse pelo crédito de carbono. Use os royalties também para convencer a Petrobras a se reinventar. Evoluir para ser uma universidade de energia com alto índice de sustentabilidade empresarial. Decida não abastecer ônibus e caminhões com diesel sujo, com alto teor de enxofre. Crie um selo de sustentabilidade municipal, seja eficiente, limpo e atento ao impacto ambiental. Atualize o Itamaraty nas discussões internacionais sobre clima e metas para a redução da emissão de gás de efeito estufa. Descubra de onde vem a chuva que escasseia ou inunda sua terra. Não tolere prefeitos de lixo nas margens de rios partilhados. Atenção para as mudanças climáticas e à nova geografia da produção agrícola.

O mundo tem pelo Brasil admiração e temor na questão ambiental, energética e alimentar. Mas sabe que somos meio tico-tico no fubá em tudo. O prefeito pode ser o artífice da agenda ambiental. Informe-se sobre onde está sua cidade no mapa geral do zoneamento agrícola, climático e energético nacional. Já está identificado por município onde se pode plantar cana para o etanol sem conflito com a agricultura de alimentos, preservação da Amazônia, florestas naturais, respeito à legislação ambiental e a indicadores de qualidade e sustentabilidade.

Se respeitarmos as cláusulas sociais e ambientais de produção somos imbatíveis. Sem trabalho de menor, superexploração de mão-de-obra, queimadas, conflito com culturas alimentares. Mecanização, produtividade e tecnologia são inevitáveis e a Embrapa já concluiu: sete regiões de sete estados são suficientes para abastecimento interno e externo. Além do etanol é hora de repensar a matriz energética dos municípios, investir em energias alternativas, atrair o avanço estratégico das indústrias com responsabilidade social.

E não esquecer a qualidade e relevância da saúde, educação, transporte, emprego, segurança, abastecimento, limpeza, lazer: o grau zero de uma cidade razoável.

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