A doutrina Obama

16/04/2012

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 15 de abril de 2012.

A primeira coisa que me vem à cabeça depois da passagem da Presidente Dilma pelos Estados Unidos é a sombra da velha política de James Monroe, o quinto Presidente norte-americano e formulador da ideia da liderança de seu país sobre toda a América. Embora fosse uma audaciosa mensagem de autoderminação, numa época em que os EUA ainda não tinham relevante poder naval, anos depois não resistiu à deturpação.  Erigia-se um novo protetorado sob o signo da “América para os americanos”.   Agora, diante das mudanças no cenário mundial e da ascensão da “periferia”, um pressionado Obama parece não perceber a substituição da preposição pelo verbo no lema antigo e formula sua doutrina nos seguintes termos: A América “pára” os americanos.

Presos a outra era, os EUA sofrem com seu desejo de sempre ver o passado projetado no futuro. E assim, por pressão conservadora, transformam governantes promissores como Obama em fracos e planos, cumpridores de ordens de um destino que se foi. Pior quando estão com a iniciativa danificada por uma campanha eleitoral, essa força da qual todos os políticos têm medo. O que se viu nessa semana, para quem observou atento os movimentos simbólicos emanados de Washington, é que o hóspede temporário da Casa Branca fez um esforço enorme para parecer distante da mais importante governante dos BRIC (iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China) – esta sigla ridícula e imaginária criada pelos simplificadores da história e destruidores das provas incômodas das visíveis mudanças na liderança do mundo. Não há leis, história, cultura, processos, estrutura que deem significado real a esse agrupamento comum para nações e povos tão diferentes. E os EUA sabem que o Brasil é o país que reúne as melhores condições entre os emergentes, exatamente por ser mais diferente do que igual aos gigantes que despontam.

Os EUA, que gastam grande parte do que possuem com estudos, prospecções e premonições, já decidiram fazer um jogo demorado para aceitar a parceria plena com o Brasil. Mas a Presidente Dilma, que tem o frescor da licitude democrática e nenhum senso de atuação artística, faz o que quer. Sabe que são os estadistas que consolidam as doutrinas e a do Brasil é o pacifismo e nosso pouco ânimo para manias de predomínio. O que fez foi o melhor do que já se viu numa viagem oficial de um Presidente brasileiro aos Estados Unidos.

Dilma mandou um recado confortador para os jovens brasileiros quando prestigiou – com respeito e sem subordinação – a inteligência, o estudo e a inovação produzidas pelos EUA desde sempre.  Falou claro para as diretoras da Universidade de Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT) do  interesse e da capacidade do Brasil na parceria da educação e da ciência com os pesquisadores daquelas prestigiadas instituições.   A necessidade que temos de formar engenheiros e cientistas não resiste aos humores e ao tempo da política. Temos que trilhar mais ou menos o caminho da China e dos demais países do leste asiático que mandaram (e mandam) gerações de jovens para aprender nos EUA. São tantos e tão eficientes os asiáticos que lá há uma cota invertida: estipula-se um número máximo deles em muitos cursos, porque senão não sobraria espaço pra ninguém.

Afinal, são as duas formas de se receber tecnologia de ponta: ou aceitando investimento de empresas estrangeiras, ou enviando pessoas para aprender nos centros onde se desenvolve a mais avançada técnica. De preferência, e se possível, é bom que se possa contar com ambas as formas.  Sendo que a última gera para o país resultados melhores no longo prazo.

Estudar nos EUA é muito caro, mas, sendo só uma questão de dinheiro, não tem mistério quando este é desvendado.  Sempre primeiro pelos pais e às vezes nunca pelos governos.  Se o país não está disposto a pagar, as famílias não esperam o governo e apostam na determinação dos jovens dispostos a ir, contudo, dessa maneira só uma parte restrita da população se beneficia. Agora, felizmente, o governo brasileiro vê a ciência como sem fronteiras. Não é um modelo mirabolante: vários países investem em estudos no estrangeiro ou o fizeram num período de sua história. E o momento é ainda mais propício, porque o grande perigo da “fuga de cérebros”, ou seja, dos estudantes não voltarem depois do curso, é menor devido às excelentes perspectivas profissionais do Brasil em comparação com os países desenvolvidos.

Aumentar a integração entre os países é a mais saudável forma de política externa. Especialmente quando, às relações oficiais entre Estados, se aplica a inteligência e não a força. A Doutrina Obama ainda é um sistema imotivado de significados em relação ao Brasil.  Não deve ser analisada somente a partir da nossa performance econômica ou da grandeza do nosso território e população. É por enquanto a simples percepção meio atordoada dos inovadores movimentos do vizinho independente, com as mesmas ferramentas do passado e sua paixão pelo domínio.

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PAULO DELGADO é sociólogo. Foi deputado federal.

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